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Afastamento físico não é abandono afetivo: saiba diferenciá-los

abandono afetivo

O abandono afetivo não começa quando nossos corpos deixam de se tocar, mas quando nos afastamos do comprometimento com o outro. Quando deixamos de ter atenção, ou deixamos de ouvir o que a outra pessoa sente, não lembramos de dizer o quanto alguém é importante, ou deixamos, para depois, as conversas que poderiam nos conectar como um abraço apertado nos conecta.

Por isso, faça a você mesmo esse questionamento: você abandonou alguma pessoa querida afetivamente só porque não se vêem mais pessoalmente? Ou é você quem se sente abandonado?

Sabemos que ter contato físico e olhar nos olhos é importante e insubstituível, porém, muitas pessoas antes da quarentena mantinham o contato físico e, ainda assim, estavam distantes sentimentalmente daqueles que estavam no seu convívio. 

abandono afetivo

Este período de afastamento obrigatório pode servir para que reflitamos sobre a qualidade das nossas relações atuais e daquelas que lutamos para manter, mesmo que algumas não nos façam tão bem quanto desejamos.

Afinal, quando estabelecemos vínculos fortes, é possível sentir a presença de quem nos acolhe mesmo que a milhares de quilômetros de distância, e sempre damos um jeito para que o contato seja mantido.

Dessa forma, mesmo que estejamos impossibilitados que estarmos juntos das pessoas fisicamente, não há a necessidade de abandonarmos afetivamente aqueles que antes estavam sempre conosco, ainda mais com o auxílio das tecnologias que tanto nos ajudam a nos aproximarmos de quem está longe.

Assim sendo, se você sente-se abandonado ou acha que está abandonando alguma pessoa querida, neste artigo você encontrará:

  • O que é abandono afetivo;
  • Quais são os tipos de abandono afetivo;
  • Quais são os efeitos do abandono afetivo;
  • Como diferenciar o abandono afetivo do afastamento físico;
  • Como lidar com a distância na quarentena e
  • Aprenda a identificar suas prioridades afetivas e seja feliz.

O que é abandono afetivo?

O abandono afetivo ou dependência afetiva é caracterizado por sofrimento emocional e sentimento de abandono e rejeição de outra pessoa. Muitos não percebem que estão se sentindo emocionalmente abandonadas ou que o fazem com outras pessoas que se relacionam, essa romanticamente ou não.

Ás vezes, essas pessoas podem estar infelizes, mas não conseguem identificar o que é, ainda mais nesse período de isolamento forçado. Dessa forma, as pessoas tendem a pensar que o afastamento físico vem obrigatoriamente acompanhado pelo abandono afetivo, e não é bem assim.

Assim sendo, o abandono afetivo – ou abandono emocional, não tem nada a ver com proximidade.

Isso pode acontecer até mesmo quando a outra pessoa está deitada ao seu lado e você não consegue se conectar e suas necessidades emocionais não estão sendo atendidas no relacionamento.

Necessidades emocionais

Muitas vezes, as pessoas não estão cientes de suas necessidades emocionais e apenas sentem que algo está faltando. Mas as pessoas têm muitas necessidades emocionais em relacionamentos íntimos. Entre essas necessidades, estão:

  • Ser ouvido e compreendido
  • Ter atenção
  • Ser apreciado e desejado
  • Ser aceito
  • Ter carinho
  • Ter amor
  • Possuir uma companhia

Consequentemente, se houver alto conflito, abuso ou infidelidade, essas necessidades emocionais não serão atendidas. Por muitas vezes, a infidelidade é um sintoma de abandono emocional no relacionamento por um ou ambos os parceiros.

abandono afetivo

Causas do abandono afetivo/ emocional

No entanto, mesmo em um relacionamento saudável, existem períodos, dias e até momentos de abandono emocional que podem ser intencionais ou inconscientes. Eles podem ser causados ​​por:

  • Reter intencionalmente comunicação ou afeto
  • Estresses externos, incluindo as demandas de parentes
  • Doenças
  • Cronogramas de trabalho conflitantes
  • Falta de interesses mútuos e tempo gasto juntos
  • Preocupação e egocentrismo
  • Falta de comunicação saudável
  • Ressentimento não resolvido

Quando os casais não compartilham interesses comuns, trabalham muito ou dormem demais, um ou ambos podem se sentir abandonados.

Por isso, é importante que se faça um esforço extra para passar um tempo conversando sobre suas experiências e sentimentos íntimos com o outro para manter o relacionamento fresco e vivo.

Entretanto, se você se sente ignorado ou se seu parceiro(a) não entende ou se importa com o que está sendo comunicado,, há uma grande chance de que eventualmente você pare de falar com ele(a). Paredes começam a se construir e você se vê vivendo uma vida separada emocionalmente.

Um sinal pode ser que você fale mais com seus amigos do que com seu parceiro(a) ou que está desinteressado em sexo mesmo passando muito tempo livres – como nesse período da quarentena, caso você esteja isolado com o seu cônjuge.

Dessa forma, os ressentimentos se desenvolvem facilmente nos relacionamentos quando seus sentimentos, especialmente mágoa ou raiva, não são expressos.

Se você tem expectativas sobre o outro, não se comunica, mas acredita que seu parceiro deve ser capaz de adivinhar ou intuí-las, se prepare para uma decepção e ressentimento.

Quais são os tipos de abandono afetivo?

Existem alguns tipos de experiências de abandono pelas quais todos nós podemos passar. Dois dois principais tipos, são o abandono na infância e o abandono nos relacionamentos amorosos, sejam eles entre amigos ou parceiros(as) românticos.

Abandono afetivo no relacionamento romântico

O abandono emocional no relacionamento é uma realidade frequente que pode causar sérios problemas psicológicos.

Esse tipo de abandono afetivo muitas vezes passa despercebido, pois se camufla por trás das rotinas e obrigações diárias. É claro que um certo distanciamento é normal, especialmente quando ambos estão em num relacionamento há anos.

No entanto, quando um dos membros do casal deixa de atender às necessidades do outro, o assunto se torna mais sério.

Todos nós sabemos que a explosão da paixão é temporária e que, mais tarde, surgem fases mais questões nas quais haverá divergências.

No relacionamento, o abandono afetivo significa que o relacionamento se tornou uma fonte de sofrimento para um dos dois e que, para essa pessoa, o desgaste já se tornou maior do que o prazer.

abandono entre amigos

Abandono afetivo pelos amigos

Um tipo de abandono muito comum entre crianças e adolescentes, o abandono afetivo sentido pela ausência dos amigos, normalmente acontece primeiro nas escolas, quando um ou mais indivíduos não se sentem acolhidos ou queridos pelos outros.

Muitas vezes, a pessoas pode até estar inserida em um grupo com outras crianças e jovens, mas passa a se sentir excluído e rejeitado por alguns integrantes do grupo, fazendo com que os conflitos se estendam até a fase adulta, em alguns casos.

Abandono afetivo na infância

Esse, pode ser considerado uns dos abandonos que mais possui más consequências para o futuro da pessoa. 

Assim sendo, quando uma criança passa por um abandono afetivo o que ela realmente possui é uma falta imensa de resposta às suas necessidades emocionais, que pode lhe trazer, em casos extremos, uma grande perda a nível psicológico e, consequentemente, afetar também a saúde física.

No momento em que a criança sofre abandono emocional, o que ela experimenta é uma sensação de desamparo que os pais ou responsáveis procuram suprir cobrindo as suas necessidades, muitas vezes, somente materiais.

O afeto é vital para o desenvolvimento emocional de uma criança.

Quais são os efeitos do abandono afetivo?

Pessoas que foram emocionalmente abandonadas podem manifestar uma gama de problemas associados, que podem variar em sua gravidade e impacto na vida cotidiana. 

Deste modo, os tipos mais comuns de sintomas são geralmente os depressivos, como tristeza, perda de interesse em atividades anteriormente prazerosas e diminuição da interação com outras pessoas, tanto por medo de serem machucadas novamente quanto por falta de desejo.

Uma pessoa que está passando por um processo desse tipo pode se desenvolver de uma maneira totalmente adaptada no seu dia-a-dia,  e apenas passará por um mau momento.

abandono e transtorno

Consequências e transtornos associados ao abandono afetivo

1. Transtorno da personalidade limítrofe (TPL)

O Transtorno de Personalidade Borderline ou Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL), é caracterizado pela presença do humor, comportamentos e relacionamentos instáveis. 

Por isso, ele pode estar muito relacionado ao sentimento de abandono afetivo.

A causa do transtorno de personalidade limítrofe ainda não é bem compreendida e o diagnóstico é feito com base nos sintomas.

Os sintomas incluem instabilidade emocional, sensação de inutilidade, insegurança, impulsividade e relações sociais prejudicadas.

Os tratamentos incluem psicoterapia ou, em alguns casos, medicamentos. 

2. Ansiedade de separação

Este tipo de ansiedade é visto por muitos como uma fonte importante de angústia e disfuncionalidade no indivíduo.

A separação do cuidador ou da pessoa com quem você tem uma relação, cria uma situação que é um terreno fértil para a percepção do abandono emocional.

Perder um relacionamento cria incerteza no indivíduo. Não saber se a pessoa amada voltará ou não, seja um dos pais ou o parceiro(a), junto com o medo de não saber se essa adversidade pode ser superada, cria tensão emocional.

Isso, combinado com o desconforto que o sentimento de abandono causa, faz com que a pessoa se auto-avalie constantemente, buscando defeitos e fraquezas.

3. Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

Embora isso possa ocorrer devido a um caso extremo, a verdade é que existem pessoas que manifestam sintomas de TEPT quando o relacionamento com um ente querido é interrompido.

Vivenciar constantemente o sofrimento emocional pode gerar uma situação traumática que, embora não precise necessariamente se tornar patológica, produzirá sequelas significativas na maneira como a pessoa se comporta.

Se a ruptura do relacionamento for abrupta, a pessoa pode temer que, nos relacionamentos futuros, esse evento ocorra novamente, vivendo uma situação de medo constante de que o passado se repita.

Como diferenciar o abandono afetivo do afastamento físico?

É muito comum que as pessoas associem o  afastamento físico ao abandono afetivo, porém, não é necessário que exista uma relação entre os dois.

Assim sendo, não é porque você não está mais fisicamente em contato com alguém, que o sentimento de carinho também tem que estar distante, ou até mesmo sumir. É necessário saber diferenciar as duas atitudes para que não haja mais sofrimento e novos conflitos não surjam. 

abandono e afastamento

E afinal, você sabe diferenciá-los?

O afastamento físico é quando estamos distante fisicamente alguém, quando os dois corpos não estão próximos.

Nesse momento em que uma pandemia castiga o mundo, por exemplo, o afastamento físico é uma das medidas de prevenção para que uma pessoa não contamine a outra, já que o vírus é transmitido pelo contato de gotículas infectadas que saem de um corpo para o outro.

Dessa forma, neste caso, o afastamento físico é o mais recomendado pelas autoridades de saúde, como a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde do Brasil. 

Já o abandono afetivo, como dito anteriormente, é o sentimento de ser esquecido ou rejeitado emocionalmente por amigos, familiares ou em relacionamentos românticos.

Esse abandono não está necessariamente relacionado ao afastamento físico, pois duas pessoas podem estar juntas e ainda assim, uma delas se sentir abandonado afetivamente, pois sente que não recebe atenção e amor suficiente – ou que já não é mais como era antes. 

Assim sendo, com atualmente o número que pessoas que se sentem abandonadas afetivamente simplesmente por não verem mais presencialmente a pessoas com quem se relaciona, pode ter aumentado. 

Desse modo, é essencial sabermos que, mesmo que distantes fisicamente, há inúmeras formas de se conectar com quem está longe.

Afinal, com as várias redes sociais e plataformas digitais de interação, podemos se comunicar com quem está distante, sem que o afeto e o carinho sejam perdidos.

E como lidar com a distância na quarentena?

A forma mais fácil e comum de diminuir distâncias atualmente é por meio da Internet.

Por isso, todas as vezes em que você sentir saudade de alguém que não vê há tempo por causa da quarentena e do isolamento social, não tenha dúvidas: mande mensagens, áudios, faça uma chamada de vídeo e não deixe de interagir com as pessoas que você sente falta e estão longe nesse momento.

Ainda, se a pessoas não estiver disponível no momento ou demorar a retornar a sua mensagem, não se deixe abater pela distância e pela ausência do outro.

Procure fazer atividades que te trazem prazer para que assim, você se distraia e consiga focar a sua atenção em práticas que agregam e auxiliam no seu próprio bem-estar.

abandono e paz

Aprenda a identificar suas prioridades afetivas e seja feliz

Conclusão: é de suma importância saber distinguir o abandono afetivo e o afastamento físico, para que você não caia nas armadilhas dos seus próprios pensamentos e sofra mais ainda com as distâncias.

Assim sendo, se torna extremamente necessário identificar quais são suas prioridades afetivas, ou seja: quem são realmente as pessoas que você precisa ao seu lado e que te fazem verdadeiramente bem, tanto fisicamente quanto emocionalmente.

Saber diferenciar as pessoas que gostam de você daquelas que estão só por interesse ou fingem se importar contigo, é o primeiro passo para jamais se sentir abandonado afetivamente, mesmo que haja um afastamento físico, como no caso da quarentena.

Estar rodeado somente dos verdadeiros e conseguir eliminar da sua vida quem não te agrega em nada, é a chave para possuir relacionamentos saudáveis e, mesmo com alguns conflitos e desentendimentos, ser feliz e bem resolvido(a).

afastamento afetivo

Inpa – Instituto de Psicologia Aplicada, Asa Sul, Brasília – DF, Brasil.

Fábio Augusto Caló

@fabiocalo - Psicólogo pelo UniCEUB e mestre em Análise do Comportamento pela UnB. Atua desde 1998 como clínico, atendendo adultos e casais. Há duas décadas, tem realizado atendimentos, principalmente, na área da conjugalidade, da sexualidade e dos transtornos de ansiedade. Tem se interessado e pesquisado sobre assuntos atuais como "dependência de internet", "vício em pornografia", "traição online", dentre outros. É palestrante e instrutor de cursos de desenvolvimento pessoal e cursos dirigidos a profissionais da saúde.

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