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Dislexia: como conviver?

Dislexia

Você já sentiu dificuldade em ler algum texto? Trocou algumas letras que tem a pronúncia parecida? Sentiu dificuldade em assimilar algo que estava ouvindo? Esses podem ser sinais de dislexia. 

Esse transtorno de aprendizagem é bastante comum, sendo que no Brasil existem mais de 2 milhões de casos ao ano. Cerca de 17% da população mundial tem a dislexia.

No texto a seguir vamos falar o que é a dislexia e quais os seus sintomas, além de mostrar algumas dicas de como lidar com o transtorno no dia a dia.

O que é dislexia?

A dislexia é um transtorno de aprendizagem caracterizada dificuldade de leitura, escrita, soletração e decodificação de letras e palavras. Ademais, a dislexia é de origem neurológica, e pode afetar cada pessoa de uma maneira diferente e em graus diferentes. Dessa forma, uma pessoa disléxica pode ser tanto tímida e quieta, quanto comunicativa e extrovertida.

A dislexia começa a se manifestar ainda no início da fase escolar, quando as crianças estão aprendendo a ler e escrever. Não é incomum, também, a dislexia ser identificada quando a criança é maior. No entanto é preciso estar atento para não confundir a dislexia com a alexia, transtorno em que a pessoa lia normalmente e depois ficou com dificuldades.

As pessoas muitas vezes acreditam que a dislexia tenha relação com a inteligência da criança, mas tal conceito já foi derrubado pela sociedade neuropediatra do mundo inteiro. Ainda, o transtorno afeta mais homens do que mulheres: são três homens para uma mulher com a dislexia. Cerca de 48% das crianças com necessidades educativas especiais têm dislexia. Por fim, a dislexia é hereditária e sem cura.

Sintomas

Como foi dito anteriormente, a dislexia afeta a pessoa em diferentes graus, por isso, os sintomas e sinais podem se apresentar de maneiras variadas. Os sintomas se tornam evidentes no período de alfabetização da pessoa. Dessa forma, os sintomas e sinais da dislexia são:

  • Atraso no aprendizado e desenvolvimento da fala, com fala prejudicada;
  • Dificuldade em pronunciar palavras, soletrar e problemas de articulação verbal;
  • Pular, omitir, trocar, substituir e misturar grafemas, sílabas, letras ou até palavras;
  • Leitura lenta, difícil, incorreta e com pouca fluência;
  • Confundir palavras similares, como mala e sala;
  • Dificuldade em identificar esquerda e direita;
  • Pular e inverter sílabas na hora de escrever;
  • Dificuldade de se expressar de maneira clara;
  • Erra ao decodificar e reconhecer palavras, mesmo as que usa frequentemente;
  • Vocabulário restrito e dificuldade em se lembrar de nomes de cores, números e letras;
  • Tendem a ser desorganizados e não ter uma noção clara de tempo e espaço;
  • Confundem letras ortograficamente e visivelmente parecidas, como: p-b-d-q, n-u, m-n, a-e, w-m, v-u, a-o,h-n, e-c, c-o, f-t, i-j, i-l;
  • Confundem letras que possuem som e pronúncia parecida, como: p-b, d-t, x-j, c-g, j-g, m-b-p, v-f;
  • Invertem total ou parcialmente sílabas na hora de ler ou falar;
  • Escrevem “errado”, com troca, inversão, substituição ou omissão de letras ou sílabas (disgrafia);
  • Dificuldade com interpretação de texto, produção de texto, rimas, atividades que envolvam palavras e matérias ligadas a linguagem e texto;
  • Não consegue associar letras e sons.

Dislexia na primeira infância e na idade escolar

Na primeira infância, a criança tende a ser muito dispersa, com falta de atenção. Além disso, pode apresentar um atraso na linguagem, na coordenação motora e na fala. A criança costuma a não apresentar interesse por livros e demora para aprender e compreender rimas e canções.

Já na idade escolar, além da desatenção de dispersão, a criança pode apresentar uma baixa autoestima e desorganização. As dificuldades, agora, são para ler em voz alta e compreender o que falou, manusear mapas e dicionários, copiar conteúdos de livros e lousas, e adquirir e automatizar as habilidades de leitura e escrita.

Perturbações e comorbidades 

Estudos no Brasil e no resto do mundo já apontaram que algumas perturbações e comorbidades são comuns em crianças com dislexia. Dessa forma, o TDAH pode ser um transtorno que acompanha a dislexia. Outros transtornos ou comorbidades que acompanham a dislexia são a enurese noturna e distúrbios do sono. 

Caso a dislexia não seja tratada de maneira correta, a criança pode desenvolver transtornos de ansiedade, depressão e ter crises de pânico em situações que exponham o transtorno. 

Por fim, é comum que a criança com dislexia também apresente dificuldade com cálculos e até discalculia.

Características de uma pessoa dislexia

É preciso acabar com a ideia de que pessoas com dislexia não são inteligentes ou que possuem QI alto. Muito pelo contrário. Pessoas disléxicas tendem a ser muito inteligentes e ter um interesse maior pelas áreas de artes, música, esportes, mecânica e negócios. 

Ademais, elas aprendem mais rápido por meio de atividades práticas, demonstrativas, experimentais e observativas. A criança com esse transtorno pode ser ambidestra e passar muito tempo imersa em seus próprios pensamentos. Sua memória de longo é excelente para situações vividas, e seus pensamentos muitas vezes são em forma de imagens e sentimentos, não de sons e palavras. 

Ainda, os sintomas da dislexia podem ser agravados quando a pessoa se encontra em lugares desorganizados, ou sob pressão e estresse. Por fim, a pessoa disléxica costuma ter uma grande sensibilidade emocional e um forte senso de justiça.

Tipos de dislexia 

A dislexia pode ser classificada em diversos tipos, de acordo com a forma que se manifesta e da abordagem profissional adotada. Dessa maneira, a dislexia pode ser classificada em:

  • Disfonética: a pessoa tem dificuldade de percepção auditiva quando analisa e sintetiza os fonemas, altera a ordem das letras e sílabas, tem dificuldades temporais e na substituição de sinônimos, tem mais dificuldade na escrita do que na leitura.
  • Diseidética: a pessoa tem dificuldade na percepção visual gestáltica, e na análise e síntese de fonemas.
  • Visual: a pessoa demora pra identificar e indicar esquerda e direita, e apresenta deficiência na percepção visual e na coordenação visomotora.
  • Auditiva: a pessoa tem uma deficiência na percepção e memória auditiva e fonética, além de não assimilar rapidamente o que está sendo dito com o que foi escrito.
  • Mista: quando a pessoa apresenta uma combinação de mais de um tipo de dislexia. 

Causas

Não existe ainda um consenso entre os cientista em relação a causa da dislexia. Mas grande parte da comunidade científica aponta algumas evidências neurológicas e genéticas como fatores causadores da dislexia. 

Uma das hipóteses é a exposição excessiva do feto a testosterona durante a gestação, o que de certa forma explica a maior incidência da dislexia em pessoas do sexo masculino.

Ainda acredita-se que, das três partes do cérebro que utilizamos enquanto lemos e escrevemos, duas são menos ativas em pessoas disléxicas. Dessa forma, a pessoa sente dificuldade para ler e escrever. Atrasos no desenvolvimento e amadurecimento do sistema nervoso central ou falha na comunicação entre neurônios também são apontados como fatores causadores da dislexia.

Prevenção

A neurociência ainda não sabe se existe alguma maneira para prevenir a dislexia. Atualmente, os médicos sugerem algumas práticas para reduzir o risco da criança desenvolver o transtorno. 

A principal prática é não utilizar substância prejudiciais ao desenvolvimento fetal durante a gravidez, como bebidas alcoólicas e cigarro. Evitar a exposição de toxinas ambientais e de testosterona durante a gravidez, também diminui as chances da criança ter dislexia.

Diagnóstico e Tratamento

O diagnóstico da dislexia normalmente é feito por uma equipe de profissionais da área da saúde. É comum usarem a exclusão, já que é preciso verificar se a pessoa não possui nenhum problema auditivo ou visual, déficit de atenção, problemas emocionais, e escolarização inadequada. 

Profissionais, como neurologista, fonoaudiólogo, psicopedagogo, fazem avaliações de leitura, fala, linguagem, audição e psicológica. Tais testes precisam ser feitos criteriosamente, para que a dislexia não seja confundida com outros transtornos. 

Além dos testes avaliativos, é feita uma análise do histórico familiar para verificar a ocorrência da dislexia na família.

Quanto mais cedo for feito o diagnóstico da dislexia, melhor para o tratamento.

O tratamento é para melhorar a qualidade de vida da pessoa disléxica, já que não existe cura para o transtorno. Ele é feito por uma equipe multidisciplinar, com psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos. 

A sessões de terapia ajudam a criança a entender a dislexia e compreender que elas não são menos que ninguém. Além disso, caso a criança tenha baixa autoestima, depressão ou ansiedade, o psicólogo irá auxiliá-la a controlar tais sintomas e comorbidades. 

É preciso que o psicólogo e médico da criança estejam em contato com os professores, pedagogos e diretores da escola. Dessa maneira, a criança terá um auxílio no ambiente escolar, diminuindo os sintomas de aprendizado. 

O tratamento não é imediato, mas os resultados aparecem gradualmente. Em razão disso, a família da criança precisa estar comprometida com o tratamento.

Como lidar com a dislexia no dia a dia

É importante ressaltar que o apoio familiar é indispensável no tratamento e convívio da dislexia. Por conseguinte, para pais de crianças disléxicas ainda na idade escolar, existem algumas dicas de como lidar com a dislexia e como auxiliar a criança nas atividades escolares e cotidianas. São elas:

  • Estimule sempre a aprendizado, incentivando a criança a aprender e a realizar atividades com palavras e textos;
  • Dê sempre orientações claras, com exemplos práticos;
  • Tenha o erro como forma de aprendizado e não de punição;
  • Esteja sempre em contato com professores, psicopedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos da crianças, buscando novas maneiras de diminuir o impacto da dislexia no cotidiano;
  • Crie brincadeiras lúdicas como forma incentivo, por exemplo: forca, palavras cruzadas, caça palavras, etc.;
  • Tenha paciência ao repetir as instruções de uma atividade escolar, e questione o entendimento da criança em relação à atividade;
  • Incentive a leitura, tanto em casa quanto na escola, e peça para a criança explicar o que leu, auxiliando-a a se lembrar de momentos do livro;
  • Evite usar relógios de ponteiro para ensinar a criança a ler as horas, e comece sempre com um relógio digital.

Hábitos úteis para uma pessoa disléxica

Ademais, a própria pessoa com dislexia pode adotar hábitos que facilitem o seu dia a dia. São eles:

  • Usar folhas grossas para ler e escrever, para que seja mais difícil ler o que está na outra página;
  • Evite escrever todas as palavras com letra maiúscula;
  • Preferir folhas que não sejam branca, como amarelo claro e creme, e cores de canetas escuras, de forma que o texto fique legível;
  • Quando for destacar algo no texto, utilizar o negrito, evitando sublinhar ou deixar em itálico;
  • Use fontes claras e simples, além de tamanho de letra grande, como 12;
  • Deixar a margem alinha a esquerda, e não justificada;
  • Utilize frases diretas, simples e curtas, e, se possível, use tópicos ao invés do texto corrido.

Por fim, lembre-se que não é impossível conviver com a dislexia. Grandes estudiosos, como Leonardo da Vinci, Albert Einstein e Pablo Picasso, tinham dislexia e tal transtorno não os atrapalhou em alcançar o sucesso. 

Inpa – Instituto de Psicologia Aplicada, Asa Sul, Brasília – DF, Brasil.

Fábio Augusto Caló

@fabiocalo - Psicólogo pelo UniCEUB e mestre em Análise do Comportamento pela UnB. Atua desde 1998 como clínico, atendendo adultos e casais. Há duas décadas, tem realizado atendimentos, principalmente, na área da conjugalidade, da sexualidade e dos transtornos de ansiedade. Tem se interessado e pesquisado sobre assuntos atuais como "dependência de internet", "vício em pornografia", "traição online", dentre outros. É palestrante e instrutor de cursos de desenvolvimento pessoal e cursos dirigidos a profissionais da saúde.

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