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Individualidade: dicas para mantê-la em tempos de quarentena

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Manter a individualidade é fundamental para estabelecer uma parceria saudável e duradoura. Portanto, são necessários esforços iguais entre o cuidar de si e o fazer a relação com o outro funcionar. 

Mas, quando se passa a viver 24h por dia com uma pessoa, por causa de uma pandemia, a individualidade pode se perder no meio de tanto compartilhamento pessoal, concorda? 

O que esse longo período em que casais estão isolados juntos fará com os relacionamentos? E o que fará com a dicotomia “conjugalidade e individualidade? O distanciamento social orientado pelas autoridades tem feito com que muitos de nós, aos pares, estejamos, na verdade, mais próximos do que nunca. E esse mesmo contexto tem nos inserido numa dinâmico de relacionamento que jamais tínhamos experimentado antes.

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Tudo isso pode abalar a linha tênue que há entre a preocupação com o outro e a invasão de privacidade. 

Sabemos que, para manter um relacionamento bem-sucedido, é necessário que ambas as pessoas mantenham sua própria individualidade e respeitem a individualidade de seu parceiro(a).

É normal que nós nos preocupemos com o nosso próprio desenvolvimento pessoal  e também com o do parceiro(a). Entretanto, até onde é saudável se preocupar com a vida de quem vive com você?

Dessa forma, nesse período da quarentena, preservar a individualidade se torna um desafio maior do que em dias comuns. É necessário aprender a conciliar os momentos juntos (de partilha) com os momentos em que há necessidade de ficar sozinho(a) e curtir aquilo que é só seu. 

Por isso, com o objetivo de auxiliar você a manter a sua individualidade sem criar conflitos a mais no seu relacionamento, abordaremos os seguintes tópicos:

  • a importância de prezar por sua individualidade;
  • dicas para manter a individualidade em tempos de quarentena;
  • a individualidade do outro;
  • como manter a relação saudável na quarentena?
  • a individualidade e sua relação com a ciência e
  • o que levaremos de aprendizagem quando a quarentena acabar?
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A importância de prezar por sua individualidade

Considerando até o individualismo, vemos que um dos efeitos mais marcantes dessa conduta é que ela motiva cada pessoa a perseguir as suas próprias paixões e desenvolver seus próprios talentos. Mas o individualismo é um extremo e esse conceito está sendo trazido apenas para mostrar que até nesse extremo, sinônimo de egoísmo, podemos colher alguma vantagem.

Já, a individualidade é aquilo que nos distingue das demais pessoas e oportuniza a liberdade de fazermos o que queremos como pessoas independentes. Nós recebemos, constantemente, ordens ou instruções para fazermos coisas que as pessoas com autoridade demandam. Isso nem sempre é ruim, claro. Precisamos respeitar as hierarquias. 

Mas, manter a sua individualidade se torna extremamente importante para que, mesmo ao longo de tantos anos e em meio a tantas experiências vividas de relações, por vezes, hierárquicas, você jamais perca o seu verdadeiro ‘’eu’’.

Por isso, mesmo que agora dividindo a vida com outra pessoa 24 horas por dia, é necessário não perder a sua essência e reservar tempo para ter momentos únicos com você mesmo, somente com a sua própria companhia. Sim, você pode ser companhia para você mesmo(a). Tão importante quanto isso, é saber que essas atitudes nada se assemelham com o egoísmo, e sim com a manutenção do seu bem-estar. 

Desse modo, as pessoas que não estão felizes com quem são ou que perderam a individualidade, podem se tornar mais amargas e fechadas quando comparadas a outras pessoas que são felizes consigo mesmas.

Sendo assim, incentivar os outros a serem eles mesmos, pode até parecer clichê, mas, é realmente um tipo de atitude que deveríamos praticar mais vezes, seja com quem for. 

Uma sociedade que possui uma personalidade diversa, é uma sociedade de multi talentos, que agregam positivamente e mutuamente na vida de cada um. É assim que obtemos novas ideias de negócios e maneiras de salvar comunidades e nações, por exemplo. É assim também que a raça humana permanece viva por tanto tempo. Se todos fossem iguais, o mundo seria um lugar provavelmente insustentável, talvez monótono e, quem sabe, sem vida.

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Dicas para manter a individualidade em tempos de quarentena

Como já pudemos perceber, manter a nossa individualidade é uma atitude valiosa. Entretanto, quando passamos a compartilhar nossos dias com alguém de maneira ininterrupta, podemos acabar perdendo um pouco dos momentos só com nós mesmos.

Assim sendo, aqui estão algumas dicas sobre como manter sua individualidade:

1. Gaste tempo com um hobby

Passe algum tempo sozinho fazendo um de seus hobbies favoritos. Se você ainda não tem certeza do que gosta de fazer para passar o tempo, experimente novas atividades.

Faça uma aula de culinária online, uma aula de desenho ou qualquer outro tipo de aula virtual que lhe pareça interessante. Vale até mesmo experimentar fazer exercícios físicos em casa assistindo treinos pela Internet.

Passar um tempo sozinho, fazendo seus hobbies favoritos, te dará uma noção de quem você realmente é separado de seu parceiro(a).

2. Cuide-se!

Às vezes, ficamos tão envolvidos em garantir que nosso parceiro(a) esteja feliz, que esquecemos de cuidar de nós mesmos. 

Por isso, não se deixe levar pelas demandas do outro e fique sempre atento às suas vontades e aos seus interesses.  Certifique-se de se sentir bem e feliz durante momentos dia. 

Arranje tempo para se exercitar, mimar-se e até mesmo comprar presentes para você. Trabalhe continuamente em seu próprio aperfeiçoamento.

Em alguns casos, não há problema em se colocar em primeiro lugar.

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3. Fale por si mesmo e se posicione

Você nem sempre precisa fazer tudo o que seu parceiro(a) deseja. 

Isso não quer dizer que você deva dizer ‘’não’’ a tudo. E sim, que deve apenas tentar agir assertivamente, ou seja, priorizar suas necessidades e seus desejos.

Lembre-se de que não há problema em dizer não às vezes, pois, assim como você, o outro também precisa respeitar seus momentos e sentimentos. 

Além disso, é muito importante que você se sinta feliz em fazer as coisas por você sem sentir-se culpado. E esse é um grande aprendizado, investir recursos em você sem culpa.

4. Reserve um tempo para você mesmo

Permita-se deitar na cama e colocar os fones de ouvido por algum tempo, assistir seu filme preferido ou se entreter com a leitura de um livro que gosta.

Reservar esses momentos no dia só para você, faz toda a diferença quando o objetivo é manter sua individualidade. Lembre-se que isso não é egoísmo e nem motivo para manter seu parceiro(a) longe de você dentro de casa, afinal, ele(a) também merece ter seus próprios momentos. 

Sendo assim, aproveite as horas vagas na quarentena para fazer o que você ama, somente na sua companhia – nem que seja só uma horinha no dia. Faça essa hora ser a sua hora.

5. Seja definitivamente adulto

Essa afirmação pode parecer meio imperativa, porém, é comum que as pessoas se queixem de que seu parceiro é imaturo e se recusa a crescer. 

Ser adulto não é apenas uma questão de comportamento emocionalmente maduro. 

Na verdade, ser verdadeiramente adulto também envolve reconhecer seus traumas e perdas, tomar medidas para resolver seus próprios problemas e entender como eles ajudaram a moldar seu comportamento atual e a sua individualidade.

Isso significa identificar e desafiar ativamente as defesas que você formou quando mais jovem e corrigir as atitudes ou preconceitos negativos que você adquiriu, atitudes essas que podem afetar sua relação e seu senso de individualidade.

Pergunte-se o que você poderia mudar para ter melhor qualidade de vida na díade individualidade-conjugalidade. E, se entender sozinho, ou por meio de ajuda, que precisa mudar, siga em frente. Não espere o seu cônjuge mudar primeiro. Você é responsável pelos seus comportamentos.

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6. Mostre-se aberto e sincero consigo mesmo

A abertura envolve a capacidade de ser franco ao revelar e expressar seus sentimentos, pensamentos, sonhos e desejos pessoais. A orientação aqui é deixar claro que a sua individualidade é importante para você. 

Não ficar na defensiva e estar aberto ao feedback é uma das habilidades de relacionamento mais valiosas que você pode desenvolver. 

Por isso, em vez de se defender das críticas ou sugestões de seu parceiro(a), você pode procurar o cerne da verdade no que seu parceiro(a) está dizendo, porque pode oferecer uma oportunidade de crescimento pessoal. Quando você se preocupa dessa maneira com o seu desenvolvimento como indivíduo, pode permanecer aberto à mudança em seu relacionamento íntimo, mas também manter seu senso de si mesmo, sua força e sua individualidade.

7. Seja honesto

Ser honesto é vital para a sua integridade como indivíduo e necessário para o desenvolvimento da confiança no seu relacionamento íntimo. 

Dessa maneira, é melhor ser honesto, mesmo quando é difícil dizer a verdade. Quando você é enganoso ou não é verdadeiro com o seu parceiro(a), você se trai e quebra o senso de realidade e confiança do outro. 

Você também prejudica a proximidade entre vocês. 

O amor requer verdade, porque sem a verdade, você não pode construir e manter a confiança essencial para um relacionamento íntimo, nem com o próximo, nem com você mesmo.

individualidade do outro

A individualidade do outro

Além de ser essencial preservar sua própria individualidade, também é importante apoiar a individualidade do seu parceiro(a).

Respeitar as vontades dele(a) é o primeiro passo para que as suas vontades também sejam respeitadas.

Assim sendo, procure sempre ser sensível às vontades, desejos e sentimentos de seu amado(a), e coloque tanto valor neles quanto em você mesmo. Esse tipo de interesse e sentimento pelo outro é sinal de empatia e altruísmo, indo muito além de qualquer preocupação vaidosa e egocêntrica que você possa ter.

Para atingir esse nível de consideração, é necessário se colocar no lugar da outra pessoa e ter compaixão por seu parceiro(a). Isso envolve usar sua mente, assim como suas emoções e intuição, para perceber e experimentar indiretamente a natureza de seu ente querido. Além do mais, quando você entende o outro dessa maneira tão empática, está ciente do que têm em comum, mas também reconhece e valoriza suas diferenças e sua própria individualidade.

Como manter a relação saudável na quarentena?

De fato, não é fácil se adaptar a uma nova rotina. Muito menos quando essa nova rotina é imposta por uma pandemia. E, dentre os novos hábitos que se inserem na nova rotina, está o de conviver dias inteiros com o seu cônjuge e a necessidade de, claro, manter a relação saudável.

De maneira geral, isso não é tarefa fácil para ninguém, entretanto, está longe de ser algo impossível.

Primeiramente, deve-se priorizar sempre o diálogo e o respeito às individualidades. Conversar sobre suas vontades e sentimentos é o passo inicial para conduzir qualquer bom relacionamento. 

Em segundo lugar, não se deve abrir mão de ter momentos especiais com ele(a) só porque não podem sair de casa! Cozinhem juntos, façam um jantar à luz de velas ou peçam uma comida gostosa pelo delivery. Assistir a um bom filme depois do jantar também é uma ótima ideia!

Depois, procurem sempre dividir as atividades domésticas e obrigatórias. Lavar a louça, cuidar dos filhos, arrumar a casa e descer com o cachorro, são algumas das atividades que não devem ser responsabilidade de só um dos componentes do casal. A divisão de tarefas é muito importante. 

E, por último – mas não menos importante, se atente às individualidades! Não deixe de valorizar os momentos em que não estão juntos, mesmo que dentro da mesma casa: eles também são importantes para manter a relação saudável neste período da quarentena.

Agora, para quem está em Brasília-DF, assistir a um filme no Cine Drive-in é uma excelente opção de saída gostosa e divertida à noite, já que as outras opções estão fechadas em função da pandemia. O Drive-in está funcionando durante quarentena, com apenas algumas restrições.

individualidade e a ciência

A individualidade e sua relação com a ciência

Um dos mais famosos cientistas do mundo, Charles Darwin foi um biólogo, geólogo e naturalista britânico que trabalhou sozinho por anos, prezando por sua individualidade acima de qualquer coisa.

A partir de dados históricos, é possível saber que em seus primeiros anos de estudo, Darwin se recusou cursar medicina na Universidade de Edimburgo e, ao invés disso, focou-se em pesquisar sobre animais invertebrados no seu próprio laboratório. 

Sendo assim, essa pequena referência nos mostra que a vontade de individualidade e de lutar por seus desejos pessoais é antiga. 

E, veja, além de ser demonstrada a partir do comportamento do cientista, a  individualidade é objeto de estudo da ciência. 

Por exemplo, há estudos que apontam evidências crescentes sugerindo que a variação na resposta emocional dos indivíduos aos desafios comuns da vida cotidiana está relacionada à biologia e à genética. E há, claro, o contraponto científico da ontogenia, ou seja, da história de aprendizagem do indivíduo como sendo crucial para questões que sugerem a marca da individualidade.

Ainda, a variação individual talvez seja mais saliente no campo da emoção, uma vez que nossas emoções determinam principalmente como reagimos às situações agradáveis e desagradáveis da vida e quando permanecemos resilientes ou não. 

A neurobiologia da individualidade

Em um estudo feito pela Helmholtz-Gemeinschaft Deutscher Forschungszentren (em livre tradução, Associação Helmholtz de Centros de Pesquisa Alemães), publicado em 2013 pela Science Magazine nos Estados Unidos, foi feita a descoberta de que o comportamento e a experiência que contribuem para as diferenças entre indivíduos, têm implicações para debates em Psicologia, ciências da educação, biologia e medicina, como afirma o professor Ulman Lindenberger, diretor do Centro de Psicologia da Vida no Instituto Max Planck de Desenvolvimento Humano (MPIB) em Berlim.

Nessa pesquisa, estudiosos descobriram que o próprio desenvolvimento contribui para as diferenças no comportamento do adulto, e que há evidências neurobiológicas diretas para apoiar essa afirmação. Ainda, os resultados sugerem que a experiência influencia significativamente o envelhecimento da mente humana.

Dessa forma, podemos afirmar que, a maneira que nós conduzimos nossa vida, desde a escolha das companhias até o ambiente em que vivemos, influencia diretamente no nosso ‘’senso de individualidade’’. 

Por isso, mais do que nunca, agora toda a população mundial está suscetível a enfrentar crises de individualidade, pois o cenário em que se vive mudou completamente devido à pandemia. 

O que levaremos de aprendizagem quando a quarentena acabar?

Infelizmente, a incerteza reina nesse momento. Não sabemos quando, nem como as coisas voltarão ao normal (nem qual será o novo normal) e tampouco até quando o isolamento social se tornará desnecessário.

Entretanto, é certo que levaremos conosco, pelo resto da vida, as consequências dessa pandemia, sejam elas boas ou ruins. 

Conclusão: mesmo com tantas dificuldades e desafios pela frente, o cenário de crise pode ser uma boa oportunidade para aprender a viver melhor. 

Entenda: isso não quer dizer que você deva ‘’glamourizar’’ o sofrimento, e sim tentar enxergar nele uma chance de crescer em todos os aspectos – na sua relação com você mesmo e com o outro, na sua vida profissional, refletir sobre quais são as suas prioridades e sobre quem realmente se faz presente na sua vida e é importante para que você seja feliz.

Só de ter lido esse artigo até aqui e ter refletido sobre a sua individualidade, você já parece estar investindo bem o seu tempo disponível nesse delicado capítulo mundial. E, com isso, claro, tirando proveito do momento.

Dessa forma, quando tudo passar e as coisas voltarem a fluir normalmente, devemos carregar conosco tudo o que aprendemos nesta época tão complicada.

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Inpa – Instituto de Psicologia Aplicada, Asa Sul, Brasília – DF, Brasil.

Fábio Augusto Caló

@fabiocalo - Psicólogo pelo UniCEUB e mestre em Análise do Comportamento pela UnB. Atua desde 1998 como clínico, atendendo adultos e casais. Há duas décadas, tem realizado atendimentos, principalmente, na área da conjugalidade, da sexualidade e dos transtornos de ansiedade. Tem se interessado e pesquisado sobre assuntos atuais como "dependência de internet", "vício em pornografia", "traição online", dentre outros. É palestrante e instrutor de cursos de desenvolvimento pessoal e cursos dirigidos a profissionais da saúde.

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