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Psicopatia: o que é, como identificar e quais os sinais

psicopatia

A psicopatia é um tema que, cada vez mais, tem atraído a atenção das pessoas. Porém, há muitos mitos e julgamentos sobre esse transtorno psíquico.

Afinal, o primeiro pensamento que vem à mente de uma pessoa, ao ouvir a palavra “psicopata”, é a lembrança do que ela já viu em séries e em filmes. 

Há muitos equívocos e mitos sobre os psicopatas. Por exemplo, sobre a incidência. Sabe-se que a psicopatia é um transtorno psiquiátrico que pode atingir de 1% a 2% da população mundial. Apesar de parecer uma porcentagem pequena, em relação ao número de pessoas, é um transtorno mais comum do que se pensa. 

O termo psicopatia foi descrito pela primeira vez, em 1940, pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley. Desde aquela época, muito se investigou sobre esse transtorno.

Em que pese tanto tempo de estudos sobre o tema, verificamos que o diagnóstico é difícil, normalmente, porque pessoas que apresentam esse quadro parecem normais aos olhos da sociedade. 

Será que todo psicopata é, necessariamente, violento? Ou, ainda, todo psicopata se tornará um serial killer? São dúvidas como essas que as pessoas têm. 

O que é exatamente a psicopatia? Quais as características de um psicopata? Há tratamento para esse transtorno? Essas e outras dúvidas serão abordadas neste texto.

Psicopata e psicopatia

A psicopatia é um transtorno de personalidade. Como dissemos antes, normalmente, é muito difícil de diagnosticar e detectar. 

Afinal, um psicopata parece um indivíduo como qualquer outro, podendo ser, inclusive, sedutor, inteligente e carismático.

 Para a Psicologia, normalmente, a psicopatia é um conjunto de traços específicos de personalidade e, além disso, apresenta padrões comportamentais peculiares. 

Dessa forma, na psicopatia, há três características de personalidade: 

  • Desinibição:  a pessoa tem dificuldade de controle de impulso, não tem paciência e não visualiza as consequências de suas ações.
  • Intrepidez: o indivíduo tem incapacidade de lidar com a situação que envolva estresse ou perigo, além de possuir uma autoconfiança excessiva e uma facilidade de manipulação e convencimento dos outros.
  • Insensibilidade: está ligada com uma deficiência da capacidade de sentir empatia, sentimento e emoções reais por outros indivíduos. Ademais, envolve, também, uma busca constante pelo prazer pessoal, mesmo que isso acarrete danos a terceiros. E, por fim, essa pessoa apresenta dificuldade de criação de relacionamentos e envolvimento emocional.

Assim, na área da Psicologia, a psicopatia está diretamente atrelada ao transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS). Devido ao fato do transtorno antissocial apresentar características muito semelhantes à psicopatia. 

Controvérsias sobre a psicopatia

A psicopatia não possui uma definição clara. A definição sobre o termo ainda é muito dividida e sem especificação. A grande questão é que, entre a psiquiatria e Psicologia, há uma discordância sobre o tema. 

Dessa forma, alguns profissionais acreditam que a psicopatia, sociopatia e o transtorno de personalidade social são sinônimos. 

Todavia, há aqueles que diferenciam os termos. Assim, para a Psicologia, geralmente, há a divisão dos três transtornos. 

Além disso, a psicopatia não é considerada um transtorno mental pontual, como a depressão ou o TEPT (transtorno de estresse pós-traumático). Ademais, a psicopatia não é considerada uma “doença” para alguns profissionais, porque “doenças”, teoricamente, podem ser tratadas. 

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), a psicopatia aparece como um transtorno de Personalidade Dissocial e está registrada na CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) sob o código F60.2. e no DSM V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) para transtorno de Personalidade Antissocial. 

Ainda, diferentes publicações e autores definem a psicopatia em uma classificação diferente. Por exemplo, de acordo com os autores Luiz Flávio Gomes e Antonio García-Pablos de Molina (2008, p. 284):

(…) exige a constatação de um padrão permanente de experiência interna e de comportamento que se afasta das expectativas da cultura do sujeito, manifestando-se nas áreas cognoscitiva, afetiva, da atividade interpessoal, ou dos impulsos, referido padrão persistente é inflexível, desadaptativo (…)

Portanto, a definição da psicopatia apresenta controvérsias e, é necessária uma ampliação no campo de pesquisa e mais estudo sobre o assunto.

Diferença entre psicopata e sociopata

Assim como na definição do termo “psicopatia”, a real diferença entre psicopatia e sociopatia ainda é muito controversa.

Por conseguinte , até mesmo psiquiatras, psicólogos e criminologistas acabam utilizando os termos de forma permutável. Há dois lados de opinião quando se trata de diferenciar os dois termos. 

Por exemplo, o psiquiatra forense, Guido Artugo Palomba, diz que os transtornos são apenas sinônimos. Porém, ainda há aqueles que afirmam que há diferenças, mas discordam sobre quais são.

Então, com base nos conceitos comuns, algumas das semelhanças entre sociopatas e psicopatas são:

  • A falta de remorso ou culpa, ou seja, falta de empatia.
  • A tendência a tomar atitudes violentas ou realizar atos em benefício próprio, mesmo que afete outras pessoas.
  • O desrespeito pelas normas de conduta social, leis e regras. 

Entretanto, é necessário falarmos sobre as diferenças. Por exemplo, a psicopatia é uma condição inata do indivíduo. Porém a sociopatia, é desenvolvida durante a vida do indivíduo, ou seja, é influenciada pelas vivências e pelos contatos com a sociedade.

Ainda, sociopatas conseguem criar laços emocionais, contudo suas relações são complicadas. Sociopatas tendem a ser explosivos e violentos. Enquanto isso, psicopatas são incapazes de criar vínculos emocionais, porque não possuem sentimentos, como empatia, apego ou culpa. 

Por fim, psicopatas tendem a ser calculistas e controlados. E sociopatas serem espontâneos e impulsivos. 

Psicopata – como identificar um no meu convívio?

Identificar um psicopata não é fácil. Porém, há padrões de comportamentos que essas pessoas possuem.

Manipulação

Psicopatas possuem uma alta habilidade de convencimento. Em razão da boa lábia, o psicopata consegue condicionar as pessoas para realizarem o que ele quer. Alguns sinais de controle e manipulação psicológica são:

  • Anulação da força de vontade da vítima.
  • Destruição ou comprometimento da autoestima do outro.
  • Realização de uma vingança através do desprezo.
  • Deturpação da realidade.

Alta capacidade interpretativa

O psicopata consegue ter uma leitura muito rápida, tanto do ambiente quanto das pessoas. Desse modo, após passar alguns minutos com uma pessoa, o psicopata consegue identificar suas fraquezas e seus pontos de vulnerabilidade. 

Em razão disso, durante um relacionamento, o psicopata, normalmente, reúne todos os tipos de informações sobre a outra pessoa e tende a usar a favor de si mesmo.

Encantadores

Em grande maioria, os psicopatas são extremamente simpáticos e encantadores. Porém, nem todo mundo que é encantador será um psicopata. Já os psicopatas, na maioria dos casos, possuem a capacidade de encantar rapidamente. 

Ao passo que, devido aos fatores citados anteriormente, o psicopata tem uma base para conseguir mostrar para a pessoa o que ela quer. E, assim, usar para o próprio benefício. 

Afeição superficial

O psicopata não consegue sentir afeto ou amor. Todos os seus relacionamentos serão baseados no benefício próprio. 

À vista dissso, se tal pessoa entrar em um relacionamento afetivo, haverá algum benefício por trás, como poder, tesão ou dinheiro. Entretanto, nunca por amor. 

Além disso, se um psicopata é preso por matar alguém, e é perguntado a ele se está arrependido, ele dirá que sim. Porém, não porque sente remorso em ter matado, e sim, porque a ação teve uma consequência negativa sobre ele.

Comportamentos agressivos

Diferente do que muitos pensam, psicopatas não são super inteligentes. Na verdade, eles tendem a ser alunos ruins durante a infância e adolescência. Apenas uma minoria se destaca por sua genialidade.

Assim sendo, alguns comportamentos são percebidos, principalmente, durante a infância. Por exemplo, é muito comum o psicopata matar e maltratar animais e/ou pessoas que ele julga vulneráveis.

Muitos psicopatas tendem a cometer crimes, usar drogas e acharem que são superiores às leis. 

Psicose

Diferente do que muitos pensam, a psicose e a psicopatia não estão interligadas. 

De modo geral, pessoas psicopatas possuem atitudes racionais e possuem compreensão de suas atitudes. Enquanto isso, a psicose é caracterizada por um comportamento sem conexão com a realidade.

Psicose é um estado mental em que ocorre a desconexão com a realidade. Por exemplo, pessoas com este quadro podem possuir alucinações, alterações de personalidade, delírios, entre outros.

A psicose, na verdade, é reconhecida como sintoma de transtorno psíquico e não uma doença. Os tipos de psicose são:

  • esquizofrenia,
  • transtorno de personalidade esquizotípica,
  • transtorno delirante persistente,
  • psicoses agudas e transitórias,
  • transtorno delirante induzido,
  • transtornos esquizoafetivos.

Outro ponto de análise é que as causas da psicose são, normalmente, definidas por genética, por uso de substância ou por doenças. A psicopatia é diferente porque não há uma explicação definida para o seu surgimento.

Apesar de ser reconhecida como sintoma, a psicose apresenta algumas características, como: 

  • delírios,
  • alucinações,
  • alterações de humor,
  • agitação e agressividade,
  • alterações comportamentais.

Personalidades sombrias

Há na psicologia certos termos para as tendências, os comportamentos e as personalidades sombrias que o ser humano pode possuir.

O termo personalidade sombria é autoexplicativo. Dessa maneira, refere-se a uma pessoa que apresenta, por exemplo, falta de sensibilidade e empatia. 

 Por outro lado, a utilização do termo, no âmbito de estudo da psicologia, refere-se ao estudo de tipos diferentes de personalidade. Assim, há três traços negativos que são:

  • O narcisismo: os narcisistas possuem uma autoestima tão elevada que deve ser nomeada arrogância. Eles possuem um ego inflado que varia de acordo com a intensidade do quadro.
  • O maquiavelismo: os maquiavélicos são extremamente manipuladores e insensíveis. Desse modo, a personalidade do maquiavélico tenta enganar os outros e dizer que os fins justificam os meios.
  • A psicopatia: os psicopatas exibem comportamento e reações prejudiciais com os outros. Eles não possuem empatia e não conseguem desenvolver um real sentimento sobre as coisas e as pessoas.

Esses traços podem se juntar a outros, como egoísmo, sadismo e maldade. Logo, essas personalidades recebem a definição de  “tríade das trevas”.

Sabe-se, também, que os psicólogos, através desses comportamentos, estudam pessoas com tendências sociopatas e psicopatas.

Porém, com o passar do tempo e da aprimoração dos estudos, mais fatores foram introduzidos.

De acordo com Morten Moshagen, existe o fator D (do inglês, “D” de dark). O fator sombrio da personalidade representa uma tendência geral básica, na qual os traços sombrios surgem como manifestações. Por isso, D representa um núcleo comum de todos os traços sombrios. 

Alguns dos traços de personalidade sombria são:

  • egoísmo,
  • sadismo,
  • narcisismo,
  • desejo de vingança,
  • desengajamento moral.

Há tratamentos para a psicopatia?

Não existe um tratamento para a psicopatia. Afinal, não se trata de uma doença pontual e, sim, de um transtorno de personalidade. 

A psiquiatra Gwen Adshead fez um artigo sobre a viabilidade e o alcance de um tratamento para transtornos de personalidade. 

Adshead propõe um modelo com sete fatores para checar a viabilidade do tratamento. Estes fatores são:

  1. A natureza e a gravidade da patologia.
  2. O grau de invasão do transtorno em outras esferas psicológicas e sociais.
  3. A saúde prévia do paciente e a existência de comorbidade e fatores de risco.
  4. O momento da intervenção diagnóstica e terapêutica.
  5. A experiência e a disponibilidade da equipe terapêutica.
  6. Disponibilidade de unidades especializadas no atendimento de condições especiais.
  7. Conhecimento científico sobre esse transtorno.

Os pacientes com o transtorno de personalidade antissocial, geralmente, demandam uma grande atenção do psicólogo. Ademais, suas características, como egocentrismo e desprezo, dificultam as possibilidades de tratamento.

Inpa – Instituto de Psicologia Aplicada, Asa Sul, Brasília – DF, Brasil.

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