TDAH em crianças designa o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, uma condição do neurodesenvolvimento descrita no DSM-5 (American Psychiatric Association, 2013) por padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que comprometem o funcionamento da criança em mais de um ambiente — em casa e na escola, por exemplo.
Quando comecei a atender famílias preocupadas com o comportamento dos filhos na escola, percebi um padrão que se repetia: a queixa vinha, na maioria das vezes, da sala de aula, raramente de casa, e o encaminhamento costuma vir acompanhado de uma pergunta implícita — “será que ele tem mesmo TDAH, ou é só um dos mais novos da turma?”.
Essa pergunta não é ingênua. Revisões sistemáticas mostram que o lugar da criança dentro da turma — e não apenas seus sintomas — influencia o diagnóstico de TDAH, com heterogeneidade alta entre os estudos. Neste artigo, reviso o que caracteriza o transtorno, o que a pesquisa mostra sobre o efeito da idade relativa, como funcionam (e falham) os instrumentos de triagem, e quais tratamentos têm sustentação em ensaios clínicos.
Neste artigo, você lerá:
O que pesa na decisão diagnóstica
O diagnóstico de TDAH em crianças não depende de um único sintoma isolado, mas de um padrão. Tam et al. (2025) revisaram sistematicamente os fatores individuais da criança associados à probabilidade de diagnóstico e identificaram 16 fatores no nível da própria criança — entre eles gênero, idade, idade relativa na série, comorbidades psiquiátricas e prejuízo funcional — que influenciam o processo diagnóstico.
Os próprios autores registram que o impacto de muitos desses fatores variou entre os estudos revisados, o que os autores atribuem à diversidade de desenhos de estudo e de contextos entre as pesquisas. Não é motivo para descartar o diagnóstico; é motivo para exigir rigor na forma como ele é construído.
Sinais que costumam ser confundidos
Na minha prática clínica, quadros de sono insuficiente vêm acompanhados de desatenção e inquietude que se confundem com os sintomas do transtorno, por isso costumo investigar o sono antes de levantar a hipótese de TDAH.
Um mito que vale desfazer: o de que açúcar causaria hiperatividade. Wolraich et al. (1995) conduziram uma meta-análise de ensaios controlados especificamente sobre esse ponto e não encontraram efeito do açúcar sobre o comportamento ou a cognição infantil. É um exemplo de prova negativa relevante — uma crença popular amplamente repetida que a pesquisa controlada não sustenta, ainda que os próprios autores registrem não ser possível descartar um efeito pequeno ou restrito a subgrupos de crianças.
Os diagnósticos de TDAH aumentaram?
A impressão de que o TDAH está sendo diagnosticado em excesso é compreensível, e as taxas de diagnóstico de fato subiram nas últimas décadas, mas os dados de prevalência ao longo do tempo não confirmam um aumento real na frequência do transtorno. Polanczyk et al. (2014) atualizaram a estimativa de prevalência mundial de TDAH ao longo de três décadas e não encontraram associação entre o ano do estudo e a prevalência estimada — ou seja, a variação observada entre estudos se explica em boa parte por diferenças metodológicas (critério diagnóstico usado, fonte de informação, exigência de prejuízo funcional), não por uma epidemia real.
Thomas et al. (2015), em revisão sistemática com meta-análise, chegaram a uma prevalência agregada de 7,2% entre crianças e adolescentes. Thomas et al. (2015) propõem usar esse valor como referência: estimativas populacionais de diagnóstico acima dele sugerem sobrediagnóstico em parte das crianças; abaixo dele, subdiagnóstico.
O peso da idade dentro da turma
Aqui está o achado que, na minha leitura, mais deveria mudar a prática clínica cotidiana. Frisira et al. (2025) conduziram revisão sistemática com meta-análise sobre idade relativa e TDAH e encontraram que as crianças mais novas dentro do próprio ano escolar têm risco relativo de 1,38 de receber diagnóstico de TDAH e de 1,28 de receber prescrição de medicação, em comparação com as colegas mais velhas da mesma turma, embora as estimativas de risco tenham apresentado heterogeneidade alta entre os estudos. Os autores também notaram que o efeito aparece nas avaliações feitas por professores, mas não nas feitas por pais — o que é coerente com a ideia de que o comportamento é julgado em comparação com os colegas de sala, não em termos absolutos.
Whitely et al. (2019), em revisão sistemática anterior, já haviam observado o mesmo padrão em 19 estudos que cobriram mais de 15,4 milhões de crianças em 13 países, com efeito da data de nascimento em 17 dos 19 estudos analisados, tanto em países com alta quanto com baixa taxa de prescrição — sugerindo que o fenômeno não é específico de um sistema de saúde ou educacional.
Esse achado, porém, não é universal. Pottegård et al. (2014), em estudo nacional dinamarquês, observaram efeito quase nulo da idade relativa sobre o uso de medicação para TDAH (razão de prevalência de 1,08; IC95% 1,04–1,12). Uma das duas explicações levantadas pelos próprios autores é o alto percentual de crianças que entram na escola um ano depois do nível correspondente à idade — o que Whitely et al. (2019) chamam de “redshirting” —, prática comum na Dinamarca, que pode neutralizar a desvantagem relativa de idade antes mesmo de a criança entrar na sala de aula; a outra é a baixa prevalência geral de uso de medicação para TDAH no país. A divergência entre os estudos sugere que o efeito pode variar com a forma como cada sistema educacional lida com a variação de maturidade dentro da turma — hipótese levantada pelos próprios autores e que, segundo eles, ainda precisa de mais pesquisa —, e não que um dos conjuntos de dados esteja errado.
Na prática, isso significa perguntar, em toda avaliação: essa criança é uma das mais novas do ano escolar? Se for, a comparação que a professora está fazendo pode estar comparando desenvolvimento, não patologia.
Como o diagnóstico deveria ser feito
Escalas de triagem preenchidas por pais e professores são ferramentas amplamente usadas, mas têm limites que precisam ser explícitos ao paciente e à família. Wolraich et al. (2013) avaliaram as propriedades psicométricas da escala de professores de Vanderbilt em população comunitária e relataram valor preditivo positivo de 0,32 — ou seja, de cada três crianças sinalizadas pela escala como possível caso de TDAH, cerca de uma preenchia a definição de caso baseada em entrevista diagnóstica estruturada com os pais.
Bard et al. (2013) avaliaram a versão para pais da mesma escala e, contra um padrão de referência um pouco diferente, relataram valor preditivo positivo de 0,19. Esses números reforçam a conclusão de Wolraich et al. (2013), que apontam a necessidade de múltiplos observadores para estabelecer o diagnóstico: a escala de triagem é um ponto de partida, não um diagnóstico. Fechar o caso em uma única escala preenchida por um único informante é um dos caminhos mais diretos para o erro diagnóstico, seja por excesso, seja por falta.
Caminhos de tratamento
O Multimodal Treatment Study of ADHD (MTA Cooperative Group, 1999) é um dos estudos de referência sobre o tema quando se discute tratamento de TDAH em crianças. Nesse ensaio clínico randomizado com 579 crianças, acompanhadas por 14 meses, o tratamento medicamentoso cuidadosamente ajustado e o tratamento combinado (medicação mais intervenção comportamental) superaram a intervenção comportamental isolada e o cuidado comunitário padrão na redução dos sintomas centrais de TDAH.
O acompanhamento de 24 meses do mesmo estudo (MTA Cooperative Group, 2004) mostrou que a vantagem do grupo medicado diminuiu com o tempo, mas persistiu, o que sugere que o benefício inicial não é passageiro, ainda que também não seja permanente ou automático sem manutenção do acompanhamento.
Gosling et al. (2025) publicaram uma revisão guarda-chuva sobre benefícios e riscos de intervenções para TDAH, organizada para apoiar a decisão compartilhada entre profissional e família. Os autores classificaram a evidência para estimulantes como de certeza moderada a alta para redução de sintomas no curto prazo, enquanto intervenções como terapia cognitivo-comportamental e acupuntura foram classificadas com certeza baixa — o que não significa ausência de efeito, mas sim que a evidência disponível ainda é frágil o bastante para não permitir conclusão firme.
Minha leitura desses estudos, lidos em conjunto, é que a decisão de tratamento é individual e depende de gravidade dos sintomas, contexto familiar e resposta observada — não de uma fórmula única aplicada a toda criança que recebe o diagnóstico.
Para ir além
Para famílias que querem aprofundar a leitura sobre o tema fora do contexto de um artigo, recomendo “Mentes Inquietas: TDAH”, de Ana Beatriz Barbosa Silva, voltado ao público brasileiro e de leitura acessível a pais e professores. Para quem lê em inglês e quer uma referência mais extensa sobre manejo do transtorno, “Taking Charge of ADHD”, de Russell A. Barkley, é um guia já na sua quarta edição.
Silva, A. B. B. (2008). Mentes inquietas: TDAH. Objetiva.
Barkley, R. A. (2020). Taking charge of ADHD: The complete, authoritative guide for parents (4th ed.). Guilford Publications.
FAQ: perguntas frequentes sobre o que é tdah em crianças
Quem pode diagnosticar TDAH em crianças?
O diagnóstico de TDAH é clínico e deve ser conduzido por um profissional habilitado — médico (geralmente psiquiatra infantil ou neuropediatra) ou, no âmbito da avaliação psicológica, por psicólogo, a partir de uma avaliação que reúna informações de múltiplos informantes (pais, escola) e não apenas de uma escala isolada, como apontam Wolraich et al. (2013) com base nos valores preditivos positivos das escalas de professores e de pais (Bard et al., 2013).
Como é feito o diagnóstico de TDAH em crianças?
A avaliação combina entrevista clínica, histórico do desenvolvimento, relatos de pais e professores e, frequentemente, escalas de triagem padronizadas. Como essas escalas têm valor preditivo positivo limitado — 0,32 para professores e 0,19 para pais, segundo Wolraich et al. (2013) e Bard et al. (2013) —, elas servem para orientar a investigação, não para fechar o diagnóstico sozinhas.
O que causa o TDAH em crianças?
O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento (American Psychiatric Association, 2013) com múltiplos fatores envolvidos. Tam et al. (2025) mapearam características individuais da criança que afetam o reconhecimento e o diagnóstico do transtorno — não as suas causas. O artigo não aborda hipóteses causais específicas; o essencial para a família é distinguir fatores de risco investigados na literatura de explicações que não são sustentadas por evidência controlada, como no caso do açúcar (Wolraich et al., 1995).
Qual é o tratamento para TDAH em crianças?
As opções com maior sustentação em ensaios clínicos incluem o tratamento medicamentoso e o tratamento combinado com intervenção comportamental, como demonstrado pelo MTA Study (MTA Cooperative Group, 1999, 2004) e reforçado pela revisão guarda-chuva de Gosling et al. (2025), que classificou a evidência para estimulantes como de certeza moderada a alta. A escolha do tratamento é individualizada.
TDAH em crianças tem cura?
O TDAH não é descrito em termos de cura: a literatura revisada aqui discute manejo e redução de sintomas ao longo do tempo, como no acompanhamento de 24 meses do MTA Study (MTA Cooperative Group, 2004), no qual o benefício do tratamento diminuiu mas persistiu.
Próximo passo
Se a leitura deste artigo levantou dúvidas sobre o comportamento do seu filho ou filha, isso é esperado — o diagnóstico de TDAH não deveria ser fechado em uma consulta rápida ou em uma escala preenchida sozinha. No Inpa, a avaliação inicial é uma consulta de 90 minutos dedicada a reunir histórico de desenvolvimento, relatos de diferentes ambientes (casa e escola) e, quando indicado, aplicação de instrumentos complementares. Essa consulta não promete fechar um diagnóstico em um único encontro — promete organizar, com rigor, o que precisa ser investigado a seguir.
Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Atuo em duas frentes de alta complexidade:
Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.
Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.
Canais Oficiais:
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Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.
Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental
Referências
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