Os opostos se atraem é a ideia popular de que diferenças de personalidade criam atração entre duas pessoas — mas o conjunto de pesquisas sobre escolha de parceiro mostra um padrão bem diferente desse mito. Casais recém-casados tendem a compartilhar forte semelhança em idade, religiosidade e orientação política (Watson et al., 2004), e a personalidade mostra pouca semelhança entre os cônjuges.
A pergunta “os opostos se atraem ou não” aparece com frequência em consultório e nas buscas sobre relacionamento, geralmente depois de uma decepção: a pessoa escolheu alguém muito diferente dela e a relação não funcionou, ou escolheu alguém parecido e se sentiu entediada. Nos dois casos, a pesquisa oferece uma resposta diferente do ditado popular (Watson et al., 2004).
De forma resumida: os estudos medem semelhança entre cônjuges, e não complementaridade; nessa literatura a semelhança aparece em algumas dimensões e quase não aparece em personalidade, mas o tipo de semelhança importa — e nem toda semelhança protege o casamento no longo prazo. Casais que compartilham valores tendem a mostrar semelhança nessa dimensão já no início do casamento e, em alguns casos, a relatar mais satisfação; já a semelhança de personalidade tem efeitos que variam entre estudos e, em certas fases da vida, aparece associada a trajetórias piores.
Neste artigo, você lerá:
- De onde vem a ideia de que os opostos se atraem
- O que os estudos encontram sobre semelhança no casal
- Quando a semelhança não garante satisfação
- Seleção ou convivência: o que aproxima os parceiros
- O peso dos modelos familiares no relacionamento
- Semelhança percebida e bem-estar no longo prazo
- O que isso muda na prática da escolha do parceiro
- Para ir além
- Perguntas frequentes
- Próximo passo
- Referências
Neste artigo, você lerá:
De onde vem a ideia de que os opostos se atraem
A frase “os opostos se atraem” não nasceu em estudos sobre casais — ela é mais ligada à física e à cultura popular. Dentro da psicologia, a ideia mais próxima disso é a teoria das necessidades complementares, formulada pelo sociólogo Robert F. Winch em 1958, segundo a qual as pessoas buscariam parceiros que completassem o que lhes falta — por exemplo, alguém dominante se uniria a alguém mais submisso. É uma teoria histórica, que ajudou a popularizar a ideia do contraste como ingrediente da atração, mas que não é usada como base dos achados apresentados aqui — ela aparece como contexto histórico, não como achado da pesquisa atual.
Na prática clínica, escuto com frequência essa frase sendo usada para justificar escolhas de parceiro que já davam sinais de desgaste: “a gente é tão diferente, por isso funciona”. O problema não é gostar de alguém diferente — é esperar que a diferença, por si só, sustente a relação. Os estudos sobre escolha de parceiro medem semelhança entre cônjuges, e não o efeito da diferença.
O que os estudos encontram sobre semelhança no casal
Watson et al. (2004) conduziram uma análise ampla de semelhança entre cônjuges em uma amostra de casais recém-casados e encontraram forte semelhança em idade, religiosidade e orientação política; semelhança moderada em escolaridade e inteligência verbal; semelhança modesta em valores; e pouca semelhança em personalidade, experiência emocional e estilo de apego. Essa semelhança não se devia simplesmente a variáveis de fundo, como idade ou escolaridade, e refletia principalmente a escolha inicial do parceiro — e não uma aproximação construída com o tempo de convivência. Outro achado do estudo: a satisfação conjugal dependia muito mais das características da própria pessoa do que da semelhança com o cônjuge.
Gaunt (2006) chegou a um resultado que complementa esse quadro. Em um estudo com 248 casais, maior semelhança entre os parceiros esteve associada a maior satisfação conjugal e a menor afeto negativo — mas não qualquer semelhança: a semelhança em personalidade ligada a papéis de gênero e em valores foi a mais fortemente associada a esses desfechos, enquanto a semelhança em atitudes e religiosidade mostrou uma relação mais fraca e inconsistente.
Juntos, esses dois estudos sugerem que cônjuges são semelhantes em algumas dimensões e pouco semelhantes em personalidade, e que o tipo de semelhança associado à satisfação é o de valores e de papéis dentro da relação (Watson et al., 2004; Gaunt, 2006).
Quando a semelhança não garante satisfação
Um bom contraponto evita que essa discussão vire um elogio incondicional à semelhança. Shiota e Levenson (2007) acompanharam casais de longo prazo — na faixa dos 40 e dos 60 anos no início do estudo — por 12 anos e encontraram que maior semelhança geral de personalidade, medida pelos cinco grandes fatores (Big Five), previu trajetórias mais negativas de satisfação conjugal ao longo do tempo. A semelhança em conscienciosidade e extroversão previu desfechos ainda piores entre os casais de meia-idade, em comparação aos mais velhos.
Esse achado não contradiz Gaunt (2006) por acaso — ele mostra que o tipo de semelhança e a fase de vida do casal importam. Semelhança em valores pode sustentar a relação; semelhança de personalidade, em certas fases, pode significar que os dois parceiros reagem da mesma forma às mesmas dificuldades, sem complementar as fragilidades um do outro. Não existe uma resposta única sobre a semelhança ajudar ou prejudicar — existe a pergunta sobre semelhança em quê, e em qual momento da relação.
Seleção ou convivência: o que aproxima os parceiros
Uma dúvida recorrente é se a semelhança entre o casal já existia antes da união ou se foi construída ao longo da convivência. Ask et al. (2013), em um estudo de base populacional norueguês com mais de 19 mil casais e cerca de 1.500 futuros casais, encontraram que as correlações de saúde mental, satisfação com a vida, otimismo e personalidade tipo A entre pessoas que ainda não eram casadas já eram baixas a moderadas — tipicamente a metade dos valores encontrados em casais já estabelecidos — o que indica tanto seleção não aleatória do parceiro quanto uma convergência inicial rápida. Os autores também observaram o que pareceu ser uma divergência moderada nos primeiros 20 anos de casamento ou coabitação, seguida por uma convergência moderada no restante da vida.
Em outras palavras: parte da semelhança já está presente desde o início — as pessoas tendem a escolher parceiros parecidos consigo, mesmo antes de qualquer convivência — e parte se constrói e se transforma ao longo dos anos, sem um caminho único de permanecer igual para sempre.
O peso dos modelos familiares no relacionamento
Esse é o ponto em que a família de origem entra na equação. Jarnecke e South (2013) estudaram 199 casais recém-casados e encontraram que a satisfação conjugal dos pais previu a satisfação conjugal dos próprios filhos adultos. Essa transmissão entre gerações foi parcialmente explicada pelas orientações de apego: para os maridos, o caminho passava pelo apego ansioso; para as esposas, não houve um efeito direto da satisfação dos pais sobre a própria satisfação, mas sim uma cadeia que ligava a satisfação dos pais ao apego na infância e, depois, ao apego na vida adulta.
Cui et al. (2008) acompanharam 358 jovens adultos e encontraram algo parecido, só que com foco no conflito: não foi o divórcio dos pais em si que esteve associado ao comportamento de conflito dos filhos em seus próprios relacionamentos, mas o conflito conjugal dos pais. Essa associação foi mediada pela crença do jovem adulto em sua própria capacidade de manter um relacionamento — a autoeficácia relacional.
Em consultório, vejo esse padrão com frequência: ele conta mais sobre a história familiar do casal do que sobre compatibilidade de hobbies. Esses dois estudos dão suporte à ideia de que os modelos de relação aprendidos dentro de casa pesam na satisfação e no modo de lidar com o conflito dentro do relacionamento — não como uma cópia mecânica do que os pais viveram, mas como um padrão de apego e de crenças sobre conflito que a pessoa carrega para suas próprias relações (Jarnecke & South, 2013; Cui et al., 2008).
Semelhança percebida e bem-estar no longo prazo
Qin et al. (2025) usaram dados do Wisconsin Longitudinal Study para investigar se a semelhança entre cônjuges na forma de ver a vida influenciava o bem-estar na velhice. Os pesquisadores encontraram que relatar forte semelhança percebida com o cônjuge nessa visão de vida esteve associado a menor risco de solidão e de comprometimento cognitivo dezesseis anos depois, mesmo depois de controlar características sociodemográficas, outras formas de semelhança, a visão de vida individual, a qualidade do casamento e a dissolução conjugal. Um detalhe interessante: a autopercepção de semelhança parece prever melhor o bem-estar tardio do que a concordância real entre as avaliações dos dois cônjuges — ou seja, sentir que o casal pensa parecido pode importar tanto quanto, ou mais do que, pensar realmente parecido.
O que isso muda na prática da escolha do parceiro
Um estudo mais recente ajuda a nuançar ainda mais esse quadro. Wu et al. (2026), em uma amostra de 2.465 participantes, encontraram que as pessoas desejam parceiros semelhantes a si tanto em traços sombrios de personalidade quanto nos cinco grandes fatores — sem que o desejo por semelhança nos traços sombrios fosse maior do que nos demais. Pessoas com um núcleo mais sombrio de personalidade preferiram parceiros mais semelhantes a si especificamente nesses traços. O achado indica que o desejo por semelhança aparece de forma parecida nos traços sombrios e nos cinco grandes fatores, e que a força desse desejo depende de quem está escolhendo.
Na prática, o que esse conjunto de estudos sugere para quem está escolhendo ou reavaliando um relacionamento é mais sóbrio do que o mito dos opostos e mais específico do que procurar alguém parecido em geral. Vale menos perguntar se o parceiro é parecido ou diferente em geral, e mais perguntar: os valores e o modo de lidar com conflito são parecidos? Os modelos de relação que cada um trouxe de casa são compatíveis? Os estudos citados aqui olharam para semelhança de valores, de papéis e de personalidade — não para semelhança de hobbies.
Para ir além
Winch, R. F. (1958). Mate-selection: A study of complementary needs. Harper & Brothers.
Levine, A., & Heller, R. (2010). Attached: The new science of adult attachment and how it can help you find — and keep — love. Jeremy P. Tarcher/Penguin.
FAQ: perguntas frequentes sobre os opostos se atraem
Os opostos se atraem de verdade?
Não da forma como o ditado popular sugere. Casais recém-casados mostram forte semelhança em idade, religiosidade e orientação política, e pouca semelhança em personalidade — mas a semelhança de personalidade não é o que mais pesa na escolha do parceiro (Watson et al., 2004).
A semelhança entre o casal costuma ajudar o relacionamento?
Nem sempre. Em casais de longo prazo acompanhados por 12 anos, maior semelhança geral de personalidade previu trajetórias mais negativas de satisfação conjugal (Shiota & Levenson, 2007), enquanto a semelhança em valores esteve associada a maior satisfação em outro estudo (Gaunt, 2006).
Os modelos familiares influenciam o relacionamento?
Sim, no modo de conduzi-lo. A satisfação conjugal dos pais está ligada à satisfação conjugal dos filhos adultos, parcialmente por meio de orientações de apego (Jarnecke & South, 2013), e o conflito conjugal dos pais está associado ao comportamento de conflito dos filhos em seus próprios relacionamentos (Cui et al., 2008).
A semelhança no casal muda com o tempo de convivência?
Em parte. Dados de base populacional sobre saúde mental, satisfação com a vida, otimismo e personalidade tipo A indicam seleção não aleatória do parceiro desde o início, seguida do que pareceu ser uma divergência moderada nos primeiros 20 anos de casamento ou coabitação e uma convergência moderada depois disso (Ask et al., 2013).
Vale a pena procurar alguém parecido comigo?
Os estudos citados aqui sugerem olhar para semelhança de valores e de papéis dentro da relação; a semelhança de personalidade mostra resultados mistos. Sentir que o casal pensa de forma parecida sobre a vida também esteve associado a menor solidão e menor risco de comprometimento cognitivo na velhice (Qin et al., 2025).
Próximo passo
Se essas perguntas tocaram em algo da sua própria história de relacionamento — um padrão que se repete, uma dificuldade em entender o que pesa de fato na escolha do parceiro — uma avaliação inicial pode ajudar a organizar esse olhar com mais clareza, sem compromisso com um processo longo.
Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Atuo em duas frentes de alta complexidade:
Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.
Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.
Canais Oficiais:
fabiocalo.com.br · Instagram @fabiocalo · YouTube @ofabiocalo · LinkedIn fabioaugustocalo
Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.
Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental
Referências
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Cui, M., Fincham, F. D., & Pasley, B. K. (2008). Young adult romantic relationships: The role of parents’ marital problems and relationship efficacy. Personality and Social Psychology Bulletin, 34(9), 1226–1235. https://doi.org/10.1177/0146167208319693
Gaunt, R. (2006). Couple similarity and marital satisfaction: Are similar spouses happier? Journal of Personality, 74(5), 1401–1420. https://doi.org/10.1111/j.1467-6494.2006.00414.x
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Qin, Y., Moorman, S., & Engelman, M. (2025). Perceived spousal similarity in outlook on life: Implications for later-life well-being. The Journals of Gerontology: Series B, 80(9), Article gbaf134. https://doi.org/10.1093/geronb/gbaf134
Shiota, M. N., & Levenson, R. W. (2007). Birds of a feather don’t always fly farthest: Similarity in Big Five personality predicts more negative marital satisfaction trajectories in long-term marriages. Psychology and Aging, 22(4), 666–675. https://doi.org/10.1037/0882-7974.22.4.666
Watson, D., Klohnen, E. C., Casillas, A., Nus Simms, E., Haig, J., & Berry, D. S. (2004). Match makers and deal breakers: Analyses of assortative mating in newlywed couples. Journal of Personality, 72(5), 1029–1068. https://doi.org/10.1111/j.0022-3506.2004.00289.x
Wu, H., Luo, S., Wall, W., & Winborne-Phillips, K. (2026). Selective similarity preference: People with a “darker core” desire more partner similarity in dark traits but not in Big Five. European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education, 16(9), 128. https://doi.org/10.3390/ejihpe16090128