A diferença de memória entre homens e mulheres na velhice é um tema em aberto na neurologia: uma meta-análise de 56 estudos populacionais não encontrou diferença significativa por sexo na incidência de comprometimento cognitivo leve amnésico, enquanto uma coorte individual, o Mayo Clinic Study of Aging, registrou incidência maior em homens (Au et al., 2017; Roberts et al., 2012). Esse comprometimento cognitivo leve (CCL), fase intermediária entre o envelhecimento normal e a demência, pode não afetar os dois sexos da mesma forma: uma coorte indica maior incidência em homens, enquanto a prevalência de demência já estabelecida é maior em mulheres.
Na minha prática como psicólogo clínico, atendo com frequência homens que relatam lapsos de memória e perguntam se isso é “coisa da idade” ou sinal de algo mais sério. A resposta começa pelos números: eles existem, são mensuráveis e contam uma história matizada, diferente do simples “homem esquece mais” ou “mulher tem mais Alzheimer”.
Reunir essas evidências importa porque decisões sobre a própria saúde cognitiva deveriam vir de informação, não de medo. Neste artigo, explico o que os estudos mostram sobre incidência de comprometimento cognitivo leve, estrutura cerebral, progressão para demência e fatores de risco como o estado civil — e por que a conversa sobre memória masculina precisa ganhar precisão, não simplificação.
Neste artigo, você lerá:
O que os estudos mostram sobre memória e sexo
Um estudo de coorte sobre o tema é o Mayo Clinic Study of Aging, publicado no periódico Neurology. Pesquisadores acompanharam 1.450 pessoas cognitivamente normais, de 70 a 89 anos, no condado de Olmsted, em Minnesota, com reavaliações a cada 15 meses, que incluíam escala de avaliação clínica de demência, exame neurológico e testagem neuropsicológica (Roberts et al., 2012). Ao final do acompanhamento, 296 participantes haviam desenvolvido comprometimento cognitivo leve.
A taxa de incidência ajustada por idade e sexo foi de 63,6 casos por 1.000 pessoas-ano. Separando os dados por sexo, a taxa foi de 72,4 em homens e 57,3 em mulheres (Roberts et al., 2012) — diferença que se repetiu nos dois subtipos: a incidência global foi de 37,7 por 1.000 pessoas-ano no subtipo amnésico (CCL com perda de memória) e de 14,7 no não amnésico, e em ambos a taxa foi maior em homens (43,9 contra 33,3 no amnésico; 20,0 contra 10,9 no não amnésico) (Roberts et al., 2012).
Quem tinha até 12 anos de escolaridade apresentou taxa maior de comprometimento cognitivo leve não amnésico — 20,3 por 1.000 pessoas-ano — do que quem tinha escolaridade mais alta, com 10,2 (Roberts et al., 2012). Na minha experiência clínica, esse dado de escolaridade costuma pesar tanto quanto o sexo biológico, e é frequentemente ignorado nas manchetes que simplificam o achado para “homem esquece mais”.
É importante notar que essa é uma taxa de incidência: conta quantas pessoas desenvolvem a condição em um período, não quantas já vivem com ela em um dado momento. Essa distinção entre incidência e prevalência é a chave para entender por que o quadro muda de figura quando olhamos para a demência já instalada, como veremos a seguir.
O hipocampo masculino encolhe mais com a idade?
Um dos candidatos a explicar parte dessa diferença está na estrutura do hipocampo, região central para a formação de memórias. Um estudo transversal publicado em 2025 na revista Neuroradiology comparou volumes hipocampais de 300 adultos saudáveis de 20 a 86 anos e encontrou perda de volume hipocampal relacionada à idade estatisticamente significativa em homens (p = 0,003), enquanto em mulheres essa perda não foi significativa (p = 0,673) (Vacca et al., 2025).
O mesmo estudo descreveu que homens apresentaram padrões de assimetria mais acentuados entre subcampos do hipocampo, como CA4-DG e CA2-3 (p < 0,001) (Vacca et al., 2025). Também houve aumento no volume percentual da subregião CA1 com a idade em homens (p = 0,038) (Vacca et al., 2025), mudança que não ocorreu de forma significativa em mulheres (p = 0,616) (Vacca et al., 2025).
Costumo dizer aos meus pacientes: um achado estrutural não é um diagnóstico nem uma sentença. Mas ele descreve um padrão estrutural, medido em adultos saudáveis e mais marcado nas faixas dos 40 e dos 50 anos, e não mediu memória: não serve para explicar a incidência de comprometimento cognitivo leve observada entre os 70 e os 89 anos (Vacca et al., 2025).
Por que mais mulheres vivem com demência
Se a incidência de comprometimento cognitivo leve foi maior em homens no Mayo Clinic Study of Aging, por que a impressão geral — amparada por dados — é de que mais mulheres vivem com demência? Parte da resposta está na diferença entre incidência e prevalência, mencionada anteriormente — e parte continua sem explicação estabelecida.
O Global Burden of Disease Study 2016, publicado na The Lancet Neurology, estimou que, naquele ano, 43,8 milhões de pessoas no mundo viviam com demência — 27 milhões de mulheres e 16,8 milhões de homens (Nichols et al., 2019). O número global de casos mais que dobrou desde 1990, quando eram 20,2 milhões, principalmente por envelhecimento e crescimento populacional, já que a prevalência padronizada por idade cresceu pouco: de 701 para 712 casos por 100 mil habitantes (Nichols et al., 2019).
Parte dessa maior prevalência em mulheres vem da maior expectativa de vida, mas não toda: no próprio GBD 2016, a prevalência padronizada por idade em mulheres foi 1,17 vez a dos homens, o que indica que a predominância feminina não se explica apenas pela longevidade (Nichols et al., 2019).
Dito de outro modo: no Mayo Clinic Study of Aging a taxa de CCL foi de 72,4 por 1.000 pessoas-ano em homens e de 57,3 em mulheres entre os 70 e os 89 anos (Roberts et al., 2012), mas mulheres respondem por boa parte das estatísticas de demência, e o próprio GBD 2016 registra que essa predominância persiste mesmo após a padronização por idade (prevalência 1,17 vez maior em mulheres), ou seja, não se reduz à maior longevidade (Nichols et al., 2019).
Nem todo esquecimento evolui para demência
Este é um ponto central deste texto, frequentemente mal interpretado. É comum o diagnóstico de comprometimento cognitivo leve ser lido como um prenúncio quase certo de demência. Os dados de meta-análise não sustentam essa leitura.
Uma meta-análise de 41 estudos de coorte de incepção, publicada na Acta Psychiatrica Scandinavica, calculou a taxa de conversão anual de CCL para demência em cerca de 5% a 10% ao ano, variando entre contextos clínicos especializados (9,6% ao ano) e estudos de base populacional (4,9% ao ano) (Mitchell & Shiri-Feshki, 2009). De forma cumulativa, em estudos populacionais, 21,9% das pessoas com CCL evoluíram para algum tipo de demência ao longo do acompanhamento (Mitchell & Shiri-Feshki, 2009).
A conclusão dos próprios autores é direta: a maioria das pessoas com comprometimento cognitivo leve não evolui para demência, mesmo depois de dez anos de acompanhamento (Mitchell & Shiri-Feshki, 2009). Isso não significa que o diagnóstico de CCL deva ser ignorado — ele ainda indica um quadro que merece acompanhamento —, mas significa que o alarmismo numérico não encontra respaldo nessa meta-análise de 41 coortes de incepção (Mitchell & Shiri-Feshki, 2009).
Quando um paciente chega ao consultório assustado com um esquecimento pontual, uma das minhas primeiras perguntas é sobre o padrão: é um esquecimento isolado e recuperável, ou uma perda progressiva que interfere na rotina? Essa diferença é o que separa uma queixa de memória comum de um quadro que merece investigação neurológica.
Estado civil e risco de declínio cognitivo
Outro fator que aparecia na literatura antiga sobre o tema — e que eu via sendo repetido sem fonte clara — era a associação entre viver sem companheiro(a) e maior risco de declínio cognitivo. Um estudo publicado em 2023 no Journal of Aging and Health trouxe dados atuais sobre essa relação.
O estudo HUNT4 70+, realizado na Noruega com 8.706 pessoas, mapeou trajetórias de estado civil entre os 44 e os 68 anos e cruzou essa informação com diagnóstico de demência e CCL após os 70 (Skirbekk et al., 2023). A prevalência de demência foi menor entre quem permaneceu casado continuamente (11,2%). Depois de ajustar por escolaridade, número de filhos, tabagismo, hipertensão, obesidade, sedentarismo, diabetes, sofrimento mental e ausência de amigos próximos, o risco de demência foi maior entre solteiros (razão de risco relativo de 1,73), divorciados continuamente (1,66) e divorciados de forma intermitente (1,50), em comparação a quem manteve o casamento (Skirbekk et al., 2023).
Um achado que considero digno de nota: a trajetória de estado civil foi, em geral, menos associada ao comprometimento cognitivo leve do que à demência (Skirbekk et al., 2023). Vale a ressalva de escopo: o estudo mediu estado civil em registros oficiais, não solidão nem isolamento social. Na prática clínica, costumo reforçar que o estado civil é um dos fatores associados ao risco de demência que aparecem nesse tipo de estudo populacional, ao lado de tabagismo, obesidade, diabetes e sedentarismo.
Para ir além
Se você quer ir além dos estudos técnicos e entender a memória de uma perspectiva mais ampla, duas leituras merecem destaque. Remember: The Science of Memory and the Art of Forgetting, da neurocientista Lisa Genova, explica de forma acessível por que esquecemos coisas do dia a dia e quando isso deixa de ser esperado. Já Successful Aging, do neurocientista Daniel Levitin, discute o que se sabe sobre envelhecer bem — cognitiva e emocionalmente. Nenhum dos dois livros substitui uma avaliação clínica, mas ambos ajudam a construir um vocabulário mais preciso sobre o próprio cérebro, o que, na minha experiência, já é meio caminho para menos ansiedade e mais ação.
Genova, L. (2021). Remember: The science of memory and the art of forgetting. Harmony.
Levitin, D. J. (2020). Successful aging: A neuroscientist explores the power and potential of our lives. Dutton.
FAQ: perguntas frequentes sobre diferença de memória entre homens e mulheres
Quem tem mais Alzheimer, homem ou mulher?
Em termos de prevalência — o número de pessoas que vivem com a doença em um dado momento —, dados do Global Burden of Disease Study 2016 mostram 27 milhões de mulheres e 16,8 milhões de homens vivendo com demência no mundo, somando doença de Alzheimer e outras demências (Nichols et al., 2019). A longevidade feminina pesa nesse número, mas não o explica sozinha: no GBD 2016, a prevalência padronizada por idade em mulheres foi 1,17 vez a dos homens (Nichols et al., 2019). No entanto, no Mayo Clinic Study of Aging a incidência de comprometimento cognitivo leve — a fase anterior à demência — foi maior em homens (Roberts et al., 2012), achado que uma meta-análise de 56 estudos populacionais não confirmou de forma generalizada (Au et al., 2017).
Esquecimento na terceira idade é normal?
Lapsos ocasionais de memória, como esquecer um nome ou onde deixou as chaves, fazem parte do envelhecimento típico. O comprometimento cognitivo leve é diferente: envolve uma queda mensurável na memória ou em outra função cognitiva, perceptível pelo próprio paciente ou por quem convive com ele, mas que ainda não compromete a independência no dia a dia. A diferença entre os dois está no padrão e na progressão, não em um esquecimento isolado.
O comprometimento cognitivo leve necessariamente evolui para demência?
Não. Uma meta-análise de 41 estudos de coorte mostrou que a taxa de conversão anual de CCL para demência fica em torno de 5% a 10%, e a maioria das pessoas com o diagnóstico não evolui para demência mesmo depois de dez anos de acompanhamento (Mitchell & Shiri-Feshki, 2009). Isso não elimina a importância de investigar e acompanhar o quadro, mas afasta o alarmismo de que o diagnóstico é, por si só, um prenúncio de demência.
Existe diferença no Alzheimer entre homem e mulher além dos números?
Há diferenças descritas na estrutura cerebral associada à memória, mas fora do contexto do Alzheimer: um estudo de 2025 com 300 adultos saudáveis identificou perda de volume hipocampal relacionada à idade em homens, mas não em mulheres, além de padrões de assimetria mais acentuados entre subcampos hipocampais nos homens (Vacca et al., 2025). Esse estudo mediu apenas volumes hipocampais, não memória nem diagnóstico de comprometimento cognitivo leve, e suas diferenças por sexo foram mais marcadas nas faixas dos 40 e dos 50 anos.
Viver sem companheiro(a) aumenta o risco de perda de memória?
Um estudo populacional recente sugere que sim, principalmente em relação ao risco de demência. O estudo norueguês HUNT4 70+ encontrou risco maior de demência entre pessoas solteiras e divorciadas, em comparação a quem permaneceu casado, mesmo após ajustar por escolaridade, hábitos de saúde e outros fatores (Skirbekk et al., 2023). A associação com o comprometimento cognitivo leve, fase anterior, foi mais fraca.
Próximo passo
Se você notou mudanças na sua memória — ou na memória de alguém que você ama — e quer entender se isso é esperado para a idade ou merece investigação, uma avaliação clínica aprofundada é o caminho mais responsável. Na consulta avaliativa de 90 minutos que realizo, reviso histórico, hábitos, exames quando existentes e aplico instrumentos de triagem cognitiva para situar o que você está vivendo dentro do que a literatura descreve — sem alarmismo e sem minimizar o que for real. Não é uma consulta de urgência, é uma consulta de clareza.
Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Atuo em duas frentes de alta complexidade:
Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.
Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.
Canais Oficiais:
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Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.
Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental
Referências
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