Revisado em 10 de junho de 2026 · Por Fábio Caló, psicólogo clínico — CRP 01/7458, registro ativo

“Mãe, fique comigo!” — quando o apego esperado vira sofrimento que pede avaliação clínica
A ansiedade de separação infantil é a reação de medo, choro ou protesto que uma criança apresenta ao se afastar de um cuidador de referência. É uma reação comum no desenvolvimento — muitas crianças choram ao ser deixadas na escola ou se agarram à mãe quando um estranho se aproxima. Comum, porém, não é sinônimo de irrelevante: o mesmo comportamento pode ser parte do desenvolvimento em uma criança e o sintoma de um transtorno em outra. Quem separa uma coisa da outra é a avaliação clínica, não a leitura de um artigo.
Atendo famílias há quase três décadas e a pergunta que mais ouço não é “isso é normal?” — é “até quando isso é normal, e a partir de que ponto eu preciso procurar ajuda?”. É essa linha, entre o apego saudável e o Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS), que este artigo mapeia faixa etária por faixa etária, com a evidência disponível e com os limites dela declarados. O que este texto não faz — e nenhum texto faz — é diagnosticar o seu filho.
A distinção entre a ansiedade de separação esperada e o Transtorno de Ansiedade de Separação não é de grau de choro: envolve persistência ao longo do tempo, sofrimento significativo e prejuízo real no funcionamento escolar, social e familiar. É uma avaliação clínica, feita caso a caso por um profissional — não uma conta que os pais façam em casa.
Neste artigo
- Ansiedade de separação normal x Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS): onde está a linha
- Como o Transtorno de Ansiedade de Separação se caracteriza clinicamente
- Sinais de alerta por faixa etária
- Bebês e primeira infância (0 a 2 anos): o vínculo em formação
- Pré-escolar (3 a 5 anos): a fase da adaptação escolar
- Idade escolar (6 a 9 anos) e pré-adolescência (10 a 12 anos)
- Prevalência: o que os dados mostram em crianças — e o que mostram em adultos
- O que fazer em casa: recomendações da minha prática clínica
- Quando a ansiedade deixa de ser normal e pede ajuda profissional
- Perguntas frequentes sobre ansiedade de separação infantil
- Glossário
Ansiedade de separação normal x Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS): onde está a linha
A ansiedade de separação, isoladamente, não é diagnóstico de nada. Bowlby (1969), na formulação clássica da teoria do apego, descreveu a reação de protesto ao afastamento do cuidador como parte do funcionamento do vínculo — sinal de que o apego se organizou, não de que algo está errado. Isso vale para a reação em si; não decide, sozinho, o que fazer com um quadro que já vem com prejuízo.
O que separa isso de um transtorno é o pacote completo: intensidade desproporcional ao contexto, duração sustentada e prejuízo real na rotina — da criança e de quem cuida dela. Chiu, Falk e Walkup (2015) tratam exatamente dessa diferenciação em sua revisão sobre transtornos de ansiedade na infância: reconhecer a ansiedade como causa de um comportamento, distingui-la do que é esperado no desenvolvimento e não confundi-la com outros diagnósticos (os autores dão atenção especial ao diagnóstico diferencial com TDAH) (Chiu et al., 2015).
Um ponto que costumo esclarecer no consultório, porque o texto que circulava neste mesmo espaço até esta reescrita reproduzia a versão desatualizada: até o DSM-IV, o Transtorno de Ansiedade de Separação era classificado como exclusivo da infância e adolescência. A partir do DSM-5 (2013) — e assim permanece no DSM-5-TR (2022), a edição vigente — essa restrição de idade de início deixou de existir. Bögels, Knappe e Clark (2013), em revisão de literatura conduzida para o grupo de trabalho do DSM-5, concluem que o critério de idade de início do DSM-IV não se sustentava: uma parcela substancial dos adultos com o transtorno relata o primeiro episódio já na vida adulta (Bögels et al., 2013).
Como o Transtorno de Ansiedade de Separação se caracteriza clinicamente
Descrevo aqui o quadro como ele se apresenta na clínica, e não como lista de critérios: o que se vê é medo ou ansiedade diante da separação de casa ou das figuras de apego, em intensidade desproporcional ao que se espera para a idade e para o momento de desenvolvimento daquela criança, sustentada por um período prolongado — não um dia ruim, nem a semana de uma mudança de escola — e acompanhada de sofrimento e de prejuízo concreto no funcionamento escolar, social ou familiar.
Os limiares formais — a duração mínima exigida, a lista de manifestações e quantas delas são necessárias — estão definidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, hoje em sua quinta edição, texto revisado: DSM-5-TR (2022). Não reproduzo aqui a redação desses critérios, e digo por quê: critério diagnóstico transcrito de memória ou de segunda mão é exatamente o tipo de erro que leva um pai a se convencer sozinho de um diagnóstico — ou a descartar um que existe. Quem aplica esses critérios é o profissional que avalia a criança.
O que vem a seguir são os parâmetros da classificação — como o diagnóstico é estruturado —, e não a redação do manual, que é material protegido e eu não reproduzo. Segundo o DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022), o quadro não se fecha por um sinal isolado: são exigências simultâneas. Pelo menos três manifestações, dentro de um conjunto de oito previsto na classificação. Medo ou ansiedade excessivos e inadequados ao nível de desenvolvimento — não basta que existam. Duração mínima de quatro semanas em crianças e adolescentes, e tipicamente seis meses ou mais em adultos. E sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional, ou em outra área importante da vida.
Essas oito manifestações cobrem, em descrição minha e não na letra do manual, os territórios em que a separação costuma se expressar: o sofrimento diante do afastamento que acontece ou que se antecipa; a preocupação persistente de perder as figuras de apego ou de que algo ruim aconteça a elas; o receio de que algum acontecimento cause a separação; a relutância ou a recusa de sair de casa, ir à escola ou a outro lugar; o medo de ficar sozinho; a resistência a dormir fora de casa ou longe da figura de apego; os pesadelos repetidos com tema de separação; e as queixas físicas recorrentes — dor de cabeça, dor de barriga, náusea, vômito — ligadas à separação real ou antecipada.
Descrevo isso para que o senhor ou a senhora reconheça o terreno, não para contar itens em casa — e a advertência tem razão técnica. Cada manifestação só entra na conta quando é excessiva para a idade e para o momento de desenvolvimento daquela criança, e é justamente esse juízo que exige formação; o quadro ainda precisa ser distinguido de outros diagnósticos que se parecem com ele; e o peso final está no prejuízo, não no número. Reconhecer sinais é motivo para marcar uma avaliação — não é fechar, nem descartar, diagnóstico.
O que separa reação esperada de transtorno não é a intensidade do choro: é a persistência, o sofrimento e o prejuízo no funcionamento — e quem faz essa leitura é a avaliação clínica.
Sinais de alerta por faixa etária
Um erro comum — e que a busca que chega até este artigo revela com clareza — é tratar “ansiedade de separação” como um bloco único. Na prática, o que é esperado, e o que preocupa, muda de cara conforme a idade da criança. Trato cada faixa separadamente porque é assim que a dúvida chega ao consultório: pelo nome da idade do filho, não pelo nome do transtorno. Duas advertências antes de continuar. As faixas abaixo são um recorte meu, de organização clínica — não correspondem a estágios definidos por nenhum manual diagnóstico. E o que vem a seguir é orientação sobre quando procurar avaliação, não um checklist para fechar ou descartar diagnóstico em casa.
Bebês e primeira infância (0 a 2 anos): o vínculo em formação
Nessa faixa, o choro ao colo trocado, a busca visual pela mãe ou pelo pai na sala e a reação a rostos desconhecidos fazem parte da formação do vínculo primário — é a base do que a teoria do apego descreve como a organização da criança em torno de uma figura de referência (Bowlby, 1969).
A versão anterior deste texto afirmava que “não há, nesta idade, diagnóstico de TAS a se cogitar”. Retiro a frase, porque ela não se sustenta. O que a literatura permite dizer é mais estreito: os estudos com melhor desenho começam mais tarde. O ensaio controlado randomizado de Schneider et al. (2011), o primeiro com programa específico para o TAS em crianças pequenas, incluiu crianças de 5 a 7 anos — e mediu resultado apenas até 4 semanas após o tratamento; a coorte brasileira de Pelotas mediu a prevalência aos 6 anos (Petresco et al., 2014). Para a faixa de 0 a 2 anos não encontrei estimativa de prevalência nem ensaio de tratamento — o que é ausência de dado, não prova de ausência do quadro. E Egger e Angold (2006), em revisão sobre psicopatologia pré-escolar, sustentam que transtornos psiquiátricos podem ser diagnosticados de forma confiável já a partir dos 2 anos de idade, desde que com critérios adequados ao desenvolvimento.
É nessa faixa que um dos parâmetros do DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) pesa mais do que em qualquer outra: a classificação não exige apenas que o medo da separação exista — exige que ele seja excessivo e inadequado ao nível de desenvolvimento. E, entre 0 e 2 anos, protestar diante do afastamento do cuidador é exatamente o que o desenvolvimento prevê. Por isso o julgamento sobre o que é desproporcional aqui é o mais delicado de todos, e é clínico: compara-se aquela criança com o que se espera do momento dela, não com uma régua fixa. Não é conta que se feche em casa — nem é justo cobrar isso dos pais.
O que muda o sinal de atenção nessa faixa não é a intensidade do choro — é a resposta ao consolo ao longo do tempo. Não trabalho com limiar de minutos aqui, e o motivo é direto: não encontrei estudo que estabeleça quantos minutos de choro separam o esperado do preocupante nessa idade, e um número sem lastro viraria régua na mão do pai. O que oriento observar é o padrão, não o episódio isolado: um bebê que, de modo geral, se reorganiza com colo, voz familiar, rotina e objeto de transição está respondendo ao consolo. Dificuldade persistente de se acalmar mesmo diante de consolo consistente, ou piora ao longo de semanas, é o que justifica levar o assunto ao pediatra — que vai considerar também dor, sono, alimentação e causas físicas antes de qualquer hipótese psiquiátrica.
Pré-escolar (3 a 5 anos): a fase da adaptação escolar
É a faixa em que a separação ganha um palco novo: a escola. Protesto na porta da sala, choro na despedida e perguntas repetidas sobre quando a mãe ou o pai volta são compatíveis com uma adaptação em curso. Na minha experiência clínica, a maior parte dessas reações perde força à medida que a criança testa e confirma que o cuidador volta — mas não fixo prazo: não encontrei estudo que defina quantas semanas de adaptação são “normais”, e um prazo sem lastro serviria tanto para tranquilizar quem deveria procurar ajuda quanto para alarmar quem não precisa. O que importa é a direção: está melhorando, está parado ou está piorando?
Passa a pedir atenção quando a recusa à escola se mantém ou piora em vez de ceder, quando aparecem sintomas somáticos recorrentes (dor de barriga, náusea, dor de cabeça) concentrados nos momentos de separação, ou quando a criança recusa dormir sozinha e desenvolve rituais de verificação (“você vai estar aqui quando eu acordar?”) que não cedem com o tempo. É também a faixa em que o tratamento tem ensaio próprio — com uma ressalva de idade: Schneider et al. (2011) testaram um programa de TCC de 16 sessões, específico para o TAS, em 43 crianças de 5 a 7 anos, faixa que alcança apenas o topo desta seção, contra lista de espera de 12 semanas. No seguimento de 4 semanas após o fim do tratamento — o único ponto de seguimento —, 76,19% do grupo tratado não preenchia mais os critérios de TAS, contra 13,64% da lista de espera.
Idade escolar (6 a 9 anos) e pré-adolescência (10 a 12 anos)
A partir da idade escolar, o quadro se desloca de birra e choro para preocupação verbalizada: medo de que algo ruim aconteça com o cuidador, recusa a dormir na casa de amigos, relutância em ir para acampamentos ou passeios escolares e pesadelos recorrentes com temas de separação. Essa é a apresentação que vejo no consultório nessa faixa — descrição clínica minha, não transcrição de critério. Chiu, Falk e Walkup (2015) tratam justamente da dificuldade de reconhecer a ansiedade como causa do comportamento nessa idade e do risco de confundi-la com outros diagnósticos; os autores dão atenção especial ao diagnóstico diferencial com TDAH (Chiu et al., 2015).
Nessa faixa etária, o custo social já é palpável: a criança que evita dormir fora, recusa convites e perde atividades por medo do afastamento está pagando um preço no desenvolvimento social — não é “manha”. E é justamente esse prejuízo no funcionamento, e não o volume do choro, o que pesa numa avaliação clínica.
| Faixa etária | O que é esperado | O que pede avaliação |
|---|---|---|
| 0 a 2 anos | Choro ao colo trocado, busca visual pelo pai ou pela mãe na sala e reação a rostos desconhecidos — parte da formação do vínculo primário. | Dificuldade persistente de se acalmar mesmo diante de consolo consistente (colo, voz familiar, rotina, objeto de transição), ou piora ao longo de semanas. Leve o assunto ao pediatra, que considerará também dor, sono, alimentação e causas físicas. |
| 3 a 5 anos | Protesto na porta da sala, choro na despedida e perguntas repetidas sobre quando o cuidador volta — compatíveis com uma adaptação escolar em curso. | Recusa à escola que se mantém ou piora em vez de ceder; sintomas somáticos recorrentes (dor de barriga, náusea, dor de cabeça) concentrados nos momentos de separação; recusa de dormir sozinha com rituais de verificação que não cedem com o tempo. |
| 6 a 9 anos | Reações de separação que cedem com o tempo e não impedem a rotina escolar e social da criança. | Preocupação verbalizada de que algo ruim aconteça ao cuidador, recusa a dormir na casa de amigos, relutância em acampamentos e passeios escolares, pesadelos recorrentes com tema de separação. |
| 10 a 12 anos | Reações de separação que cedem com o tempo e não impedem a rotina escolar e social do pré-adolescente. | Custo social já palpável: evitar dormir fora, recusar convites e perder atividades por medo do afastamento. É o prejuízo no funcionamento — não o volume do choro — que pesa numa avaliação clínica. |
Quadro comparativo de elaboração do autor a partir da prática clínica — não reproduz tabela de nenhuma fonte publicada e não constitui critério diagnóstico. A distinção entre reação esperada e transtorno exige avaliação profissional. Dr. Fábio Caló, CRP 01/7458.
Prevalência: o que os dados mostram em crianças — e o que mostram em adultos
Não uso a estatística que circulava neste artigo antes desta reescrita — os números (“8 a 12% nos EUA”, “4,6% em crianças e 5,8% em adolescentes no Brasil”) estavam presos a uma nota de rodapé para um arquivo.docx que não existe mais e não resistiram à checagem. Uso o que encontrei com fonte verificável, e começo pelo dado de criança, que é do que trata este artigo.
O dado brasileiro mais robusto que encontrei vem da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004, que avaliou 3.585 crianças de 6 anos no sul do Brasil: a ansiedade de separação apareceu em 3,2% da amostra, entre os subtipos mais comuns de transtorno de ansiedade nessa idade (Petresco et al., 2014). Três ressalvas que o próprio estudo impõe. É uma cidade e uma idade específicas, não uma prevalência nacional. O diagnóstico foi feito pelo instrumento DAWBA segundo os critérios do DSM-IV, e não pela edição vigente do manual — o número, portanto, não é diretamente comparável ao que se mediria hoje. E prevalência em população geral não diz nada sobre a criança específica de quem lê. Não estendo o dado além do que o estudo mediu.
Nos adultos, o número é outro e a leitura também. No maior levantamento internacional sobre o tema, o World Mental Health Survey da Organização Mundial da Saúde, com 38.993 adultos em 18 países, a prevalência de TAS ao longo da vida ficou em média 4,8% (intervalo interquartil, percentis 25–75: de 1,4% a 6,4%) — e 43,1% dos casos relataram o primeiro episódio já depois dos 18 anos (Silove et al., 2015). Dois pontos que mudam o sentido desse número e que costumam sumir quando ele é citado solto. Primeiro: é um dado retrospectivo, obtido perguntando a adultos sobre a vida inteira, sobre uma definição de TAS ampliada a partir dos critérios do DSM-IV. Segundo: a prevalência nos 12 meses anteriores à entrevista foi bem menor — 1,0% da amostra total (intervalo interquartil: 0,2% a 1,2%). Ou seja, 4,8% não é a proporção de crianças com TAS hoje; é quanto de uma população adulta relata ter tido o quadro em algum momento da vida.
O que fazer em casa: recomendações da minha prática clínica
Declaro a natureza do que vem a seguir antes de escrever: são recomendações da minha prática clínica, não achados de pesquisa, e não substituem avaliação. Onde há estudo, digo qual é; onde não há, digo que a orientação é minha. O ponto com melhor lastro nesta seção é o pano de fundo dela — o modo como os pais respondem à ansiedade do filho é, por si só, alvo de tratamento. Lebowitz et al. (2020) testaram, em ensaio randomizado de não inferioridade com 124 crianças de 7 a 14 anos, um programa dirigido apenas aos pais e voltado a reduzir a acomodação familiar à ansiedade da criança: o resultado não foi inferior ao da TCC feita com a própria criança, e a redução da acomodação familiar foi maior no grupo dos pais (Lebowitz et al., 2020). O que os pais fazem pesa. O que segue é como eu costumo traduzir isso na rotina de uma família:
Sinalize com antecedência para onde vai e quando volta, sem prometer horário exato — uma margem de erro clara evita que um atraso vire prova de que “algo deu errado”. Torne a despedida breve e previsível: na minha prática, despedidas longas e repetidas tendem a prolongar o protesto em vez de aliviá-lo — é recomendação clínica minha, não resultado de estudo, e não conheço ensaio que tenha isolado essa variável. Nunca use a ameaça de abandono (“vou embora e não volto mais”) como recurso disciplinar — ela ensina exatamente o medo que se quer reduzir. Reduza a exposição a conteúdo de risco e de perigo no noticiário e nas telas antes de dormir. E, diante do medo verbalizado, não prometa invulnerabilidade (“nada de ruim vai acontecer”) — a promessa que a criança percebe como falsa gera mais desconfiança; o que funciona, na minha experiência, é apontar com ela as evidências concretas contra o perigo imaginado. Uma advertência que vale mais do que a lista inteira: se essas medidas não estiverem mudando o quadro, isso não significa que os pais falharam nem que devem insistir mais — significa que é hora de procurar avaliação.
Quando a ansiedade deixa de ser normal e pede ajuda profissional
O sinal de encaminhamento não é o medo em si — é o conjunto: a reação se mantém ou piora ao longo do tempo em vez de ceder, traz sofrimento visível à criança e cobra um preço concreto na rotina escolar, social ou familiar dela e da casa. Sobre prazo, existe sim um limiar formal, e eu o trago aqui com a advertência colada nele — porque número de semanas solto na mão de quem já está esperando costuma virar licença para esperar mais. Se os três elementos acima estiverem presentes, o passo é marcar uma avaliação — quem mede duração e prejuízo contra critério é o profissional, com a criança à frente.
O DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) estabelece duração mínima de quatro semanas em crianças e adolescentes — em adultos, tipicamente seis meses ou mais — e exige, além da duração, sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, acadêmico, ocupacional ou em outra área importante da vida.
Essas quatro semanas são o limiar que o profissional aplica junto com o restante do critério, e não um cronômetro doméstico. Se a reação do seu filho já se mantém ou piora, já traz sofrimento visível e já cobra preço na rotina, não há o que contar antes de marcar a avaliação: a duração é um dos elementos que o profissional vai medir, com a criança à frente — não é a senha de entrada.
A terapia cognitivo-comportamental tem sustentação de evidência nos transtornos de ansiedade da infância. A revisão sistemática com metanálise de Wang et al. (2017), publicada na JAMA Pediatrics, reuniu 115 estudos e 7.719 pacientes (idade média de 9,2 anos, faixa de 5,4 a 16,1 anos): comparada a lista de espera ou a nenhum tratamento, a TCC reduziu os sintomas de ansiedade e aumentou as taxas de remissão e de resposta. Três limites que a própria metanálise declara e que mudam a leitura do resultado. Primeiro: ela trata dos transtornos de ansiedade infantil como grupo — pânico, ansiedade social, fobia específica, ansiedade generalizada e ansiedade de separação —, sem estimativa isolada para o TAS. Segundo: as comparações diretas entre tratamentos foram escassas e as estimativas, imprecisas; os autores concluem que a evidência sustenta a efetividade da TCC e dos ISRS, não a superioridade de uma sobre os outros. Terceiro: a combinação de sertralina com TCC superou cada tratamento isoladamente. Eventos adversos foram comuns com medicação e não com TCC (Wang et al., 2017).
Para o TAS especificamente, o ensaio randomizado de Schneider et al. (2011), com 43 crianças de 5 a 7 anos, testou um programa de TCC de 16 sessões desenhado para o transtorno contra lista de espera de 12 semanas: no seguimento de 4 semanas após o fim do tratamento, 76,19% do grupo tratado não preenchia mais os critérios de TAS, contra 13,64% da lista de espera (Schneider et al., 2011). A ressalva pesa tanto quanto o número: o estudo mediu em três momentos — antes, logo após o tratamento e 4 semanas depois —, e essas 4 semanas foram o único ponto de seguimento. Os próprios autores descrevem o achado como eficácia de curto prazo, e não há no estudo dado algum sobre manutenção do ganho além disso. Some-se a amostra pequena e o fato de ser um ensaio único, com diagnóstico pelos critérios do DSM-IV: sustenta a direção, não fecha a questão nem promete resultado durável.
Na prática, indico a TCC como primeira linha e encaminho para avaliação médica ou psiquiátrica conjunta nos quadros mais graves ou com comorbidade. Qual é a conduta para o seu filho, porém, não se decide por artigo: decide-se na avaliação.
Se o quadro do seu filho ultrapassou a fase de adaptação e vem com prejuízo sustentado, o próximo passo não é esperar a criança “superar sozinha” — é uma avaliação clínica. No Inpa, esse é o trabalho da terapia infantil.
Glossário
Os termos técnicos usados neste artigo, na acepção que o próprio texto e as fontes citadas empregam.
- Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS)
- Quadro em que o medo ou a ansiedade diante da separação de casa ou das figuras de apego é excessivo e inadequado ao nível de desenvolvimento, persistente, e vem acompanhado de sofrimento e de prejuízo no funcionamento escolar, social ou familiar. Quem o identifica é a avaliação clínica, caso a caso. Ansiedade de Separação — visão geral →
- Figura de apego
- O cuidador de referência em torno de quem a criança organiza o vínculo. Bowlby (1969) descreveu o protesto ao afastamento dessa figura como sinal de que o apego se organizou — não de que algo está errado.
- Acomodação familiar
- O modo como a família responde à ansiedade da criança, poupando-a do desconforto. Lebowitz et al. (2020) testaram um programa dirigido apenas aos pais para reduzi-la: o resultado não foi inferior ao da TCC feita com a própria criança. Terapia infantil no Inpa →
- DSM-5-TR
- Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quinta edição, texto revisado (2022) — a edição vigente. Define os parâmetros do diagnóstico; este artigo descreve a estrutura deles, sem reproduzir a redação do manual.
- Prevalência
- A proporção de uma população que apresenta o quadro em um dado período. Para a faixa de 0 a 2 anos este artigo não encontrou estimativa — o que é ausência de dado, não prova de ausência do quadro.
- Ensaio de não inferioridade
- Ensaio randomizado desenhado para testar se um tratamento não é pior que outro já estabelecido — e não se é melhor que ele.
- Diagnóstico diferencial
- O trabalho de distinguir um quadro de outros que se parecem com ele. Chiu, Falk e Walkup (2015) dão atenção especial ao diagnóstico diferencial entre a ansiedade e o TDAH nessa faixa etária. 7 critérios para distinguir ansiedade normal de patológica →
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- Abordagem psicoterápica que indico como primeira linha para o TAS. O único ensaio específico citado aqui testou um programa de 16 sessões em crianças de 5 a 7 anos (Schneider et al., 2011. Terapia Cognitivo-Comportamental no Inpa →
Perguntas frequentes sobre ansiedade de separação infantil
Ansiedade de separação em bebês é normal?
Nos primeiros dois anos, o protesto ao afastamento do cuidador principal faz parte da formação do vínculo de apego. Na minha observação de consultório, é a reação mais frequente nessa idade — observação clínica minha, não estimativa de prevalência: não encontrei estudo que quantifique quantas crianças apresentam essa reação. Isso não equivale a dizer que transtorno nessa faixa não existe: o que existe é falta de dado — não encontrei estimativa de prevalência nem ensaio de tratamento para 0 a 2 anos, e Egger e Angold (2006) sustentam que diagnóstico psiquiátrico confiável é possível a partir dos 2 anos com critérios adequados ao desenvolvimento. O que pede atenção é a dificuldade persistente de se acalmar mesmo com colo, voz familiar e rotina estável, ou a piora ao longo de semanas. Nesses casos, converse com o pediatra.
O que diferencia a reação esperada do Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS)?
Em linguagem clínica, e sem transcrever critério: a combinação de medo desproporcional ao que se espera para a idade e o desenvolvimento daquela criança, persistência ao longo do tempo em vez de remissão, sofrimento e prejuízo funcional significativo na rotina escolar, social ou familiar. Os limiares formais — duração mínima, lista e número de manifestações — estão no DSM-5-TR (2022) e são aplicados pelo profissional que avalia a criança, não pelos pais em casa. Para dar a dimensão em números, sem transformar isso em checklist: o DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) exige pelo menos três manifestações dentro de um conjunto de oito, medo ou ansiedade excessivos e inadequados ao nível de desenvolvimento, duração mínima de quatro semanas em crianças e adolescentes — tipicamente seis meses ou mais em adultos — e sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento. Reconhecer esses elementos em casa é razão para procurar avaliação; não é diagnóstico fechado.
O Transtorno de Ansiedade de Separação só acontece em crianças?
Não. Até o DSM-IV, o transtorno era classificado como exclusivo da infância e adolescência. A partir do DSM-5 (2013) — e assim permanece no DSM-5-TR (2022) — essa restrição de idade de início deixou de existir (Bögels et al., 2013). No maior levantamento internacional sobre o tema, 43,1% dos casos ao longo da vida tiveram o primeiro episódio depois dos 18 anos (Silove et al., 2015).
TAS na infância tem tratamento?
Sim. Na metanálise de Wang et al. (2017), publicada na JAMA Pediatrics, a TCC reduziu sintomas e aumentou a remissão frente a lista de espera nos transtornos de ansiedade infantil tomados como grupo — sem estimativa isolada para o TAS —, e a combinação de sertralina com TCC superou cada tratamento isoladamente; as comparações diretas entre tratamentos foram escassas e imprecisas. Para o TAS especificamente, o ensaio randomizado de Schneider et al. (2011), com 43 crianças de 5 a 7 anos, encontrou 76,19% de remissão no grupo tratado contra 13,64% na lista de espera — no seguimento de 4 semanas após o tratamento, único ponto de seguimento do estudo. Os autores declaram eficácia de curto prazo: não há dado sobre manutenção do resultado além dessas 4 semanas.
Quantas crianças têm ansiedade de separação no Brasil?
O dado brasileiro com fonte verificável mais robusto vem da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004: entre 3.585 crianças de 6 anos avaliadas no sul do país, a ansiedade de separação apareceu em 3,2% da amostra (Petresco et al., 2014). Duas ressalvas: é um dado local — uma cidade, uma idade —, não uma prevalência nacional; e o diagnóstico seguiu os critérios do DSM-IV, aplicados pelo instrumento DAWBA, e não a edição vigente do manual.
Leia também (não-evidência)
Próximo passo
Se o quadro do seu filho já ultrapassou a fase de adaptação — com prejuízo sustentado na escola, no sono ou na vida social — o próximo passo é uma avaliação clínica, não a espera. Conheça a terapia infantil no Inpa.
Referências
American Psychiatric Association. (2013). Highlights of changes from DSM-IV-TR to DSM-5. American Psychiatric Publishing.
Bögels, S. M., Knappe, S., & Clark, L. A. (2013). Adult separation anxiety disorder in DSM-5. Clinical Psychology Review, 33(5), 663–674. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2013.03.006
Bowlby, J. (1969). Attachment and loss: Vol. 1. Attachment. Basic Books.
Chiu, A., Falk, A., & Walkup, J. T. (2015). Anxiety disorders among children and adolescents. Focus, 14(1), 26–33. https://doi.org/10.1176/appi.focus.20150029
Egger, H. L., & Angold, A. (2006). Common emotional and behavioral disorders in preschool children: presentation, nosology, and epidemiology. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 47(3–4), 313–337. https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.2006.01618.x
Lebowitz, E. R., Marin, C., Martino, A., Shimshoni, Y., & Silverman, W. K. (2020). Parent-based treatment as efficacious as cognitive-behavioral therapy for childhood anxiety: A randomized noninferiority study of Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 59(3), 362–372. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2019.02.014
Petresco, S., Anselmi, L., Santos, I. S., Barros, A. J. D., Fleitlich-Bilyk, B., Barros, F. C., & Matijasevich, A. (2014). Prevalence and comorbidity of psychiatric disorders among 6-year-old children: 2004 Pelotas Birth Cohort. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 49(6), 975–983. https://doi.org/10.1007/s00127-014-0826-z
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Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999.
Canais Oficiais:
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