Sinto raiva do meu ex depois do término: é normal?

Homem adulto sentado sozinho junto à janela de um apartamento à noite, em reflexão após o fim de um relacionamento

Raiva depois do término é a reação de irritação, revolta ou ressentimento que surge nas semanas e nos meses seguintes ao fim de um relacionamento amoroso, geralmente acompanhada de pensamentos repetitivos sobre quem terminou e sobre a própria identidade.

Recebo esse relato quase todas as semanas no consultório: a pessoa jura que não sente raiva, só “um pouco de mágoa” — e, duas frases depois, descreve semanas repassando a mesma discussão, o mesmo rosto, a mesma voz. Não é fraqueza nem falta de maturidade. É o que a pesquisa sobre separação conjugal descreve como um processo de reorganização do apego (Sbarra & Borelli, 2019).

Neste artigo, explico por que a raiva aparece mesmo quando a pessoa “não quer mais pensar nisso”, por que ela não segue uma progressão limpa de etapas, como a idealização de quem terminou se encaixa nesse quadro e o que a ruminação sobre o relacionamento tende a produzir — ajuda ou mais sofrimento, dependendo de como ela acontece.

Neste artigo, você lerá:

Por que a raiva aparece depois do término

Um relacionamento não altera só a rotina de duas pessoas: ele altera o conteúdo e a estrutura do autoconceito de cada uma. Em um estudo com três etapas metodológicas distintas, Slotter, Gardner e Finkel (2010) mostraram que, depois de um término, os participantes relatavam tanto mudança no conteúdo de quem diziam ser quanto redução da clareza sobre quem eram — e essa perda de clareza, isoladamente, predizia o nível de sofrimento emocional relatado. Isso ajuda a explicar por que o término não dói só pela ausência da outra pessoa: dói também porque uma parte de como você se descrevia foi construída em relação a ela.

Há também um componente que não é só psicológico no sentido estrito da palavra. Fisher, Brown, Aron, Strong e Mashek (2010) usaram ressonância magnética funcional para observar quinze pessoas (dez mulheres e cinco homens) recentemente rejeitadas por um parceiro, que ainda relatavam estar “intensamente apaixonadas”. Ao verem a foto de quem as havia rejeitado, apresentavam ativação em regiões associadas a ganhos e perdas, fissura e regulação emocional — incluindo áreas também envolvidas na dependência de cocaína, o que, segundo os próprios autores, pode ajudar a explicar os comportamentos obsessivos associados à rejeição amorosa. Uma revisão sistemática posterior, reunindo os estudos de neuroimagem funcional sobre rejeição romântica entre adultos publicados entre 2004 e 2018, encontrou um padrão parecido em uma base ainda pequena de pesquisas — quatro estudos no total —, com ativação em regiões ligadas a dor e memória, a recompensa e circuitos dopaminérgicos, e a regulação emocional e comportamental (van der Watt et al., 2021). Os próprios autores da revisão apontam que essa base de estudos ainda é pequena e heterogênea, não uma conclusão fechada sobre “o cérebro do término”.

Juntas, essas duas linhas de achado sustentam uma ideia mais restrita: o término mobiliza uma perda real de estrutura identitária e um sistema de recompensa que, por um tempo, continua reagindo a um estímulo que deixou de estar disponível. Nenhum desses estudos mediu raiva especificamente — o que eles medem é sofrimento emocional e resposta cerebral à rejeição.

A raiva não segue uma linha reta

Homem caminhando sozinho em uma rua à noite, metáfora do processo não linear de superação após o término

Um erro comum é esperar que a raiva apareça, exista por um tempo determinado e depois vá embora em ordem — como se houvesse uma fila de sentimentos. Sbarra e Borelli (2019), revisando pesquisas sobre separação conjugal sob a lente da teoria do apego, descrevem esse período como um processo de reorganização do apego, acompanhado por duas mudanças que podem ser seguidas ao longo do tempo: a coerência da narrativa que a pessoa conta sobre o que aconteceu e a clareza do autoconceito. Segundo os autores, diferenças individuais em ansiedade e evitação de apego moldam a variabilidade dessa reorganização — não existe um cronograma único.

Em um estudo anterior com 89 adultos após separação conjugal recente, Sbarra e Borelli (2013) mediram a variabilidade da frequência cardíaca enquanto os participantes recordavam a separação. O resultado foi específico: entre pessoas com alta evitação de apego, quem apresentava aumento da variabilidade cardíaca durante a tarefa mostrava melhora no autoconceito três meses depois; quem apresentava queda não mostrava melhora, ou até piorava. Ou seja, a mesma característica de personalidade se associou a desfechos opostos dependendo da capacidade momentânea de regulação fisiológica — o que reforça que “fases fixas” descrevem mal esse processo.

Idealizar quem terminou com você

É comum alternar, no mesmo dia, entre lembrar quem terminou como alguém insuportável e lembrá-lo como alguém quase perfeito. Parte da literatura sobre idealização ajuda a entender esse segundo polo — com uma ressalva importante de escopo. Murray, Holmes e Griffin (1996) acompanharam casais de namorados por um ano e descreveram como a idealização do parceiro, enquanto o relacionamento estava em curso, se associava a mais satisfação e a menos conflitos e dúvidas relatados ao longo do tempo. Murray et al. (2011), em um estudo longitudinal com casais recém-casados, mostraram que idealizar o cônjuge no início do casamento se associava à ausência de queda na satisfação nos três anos seguintes. Nenhum dos dois estudos investigou o que acontece com a idealização depois que o relacionamento termina — eles descrevem um mecanismo de relações em curso, não de pós-término, e usar esse achado para justificar “ele era perfeito, eu que estraguei tudo” é estender a pesquisa além do que ela mediu.

O que existe especificamente sobre pensamentos depois do fim do relacionamento vem de outro desenho de pesquisa. Brenner e Vogel (2015) desenvolveram e validaram, em quatro amostras, uma escala para medir a valência de pensamentos sobre um ex-relacionamento — a PANERT. Na amostra usada para testar a validade do instrumento, o conteúdo positivo dos pensamentos sobre o ex se associou a piores desfechos de recuperação, enquanto o conteúdo negativo apresentou associações mistas, tanto com desfechos piores quanto com desfechos positivos. Em outras palavras: insistir no que havia de bom tendeu a se associar a mais dificuldade de seguir adiante do que insistir no que havia de ruim.

Pensar demais no ex: ajuda ou piora?

Homem no escritório com a mão sobre o celular virado para baixo na mesa, olhar distante, representando a tentativa de não ruminar sobre o ex-relacionamento

Ruminar sobre o término — repassar mentalmente o que aconteceu, o que poderia ter sido diferente — tem efeito duplo na literatura, e o resultado parece depender do estilo de apego de quem rumina. Marshall, Bejanyan e Ferenczi (2013), em dois estudos com 411 e 465 participantes, encontraram que a ansiedade de apego se associava a mais sofrimento após o término, e esse sofrimento, por sua vez, se associava a mais crescimento pessoal relatado, mediado por reflexão e processamento cognitivo do que aconteceu. Já a evitação de apego se associou a menos sofrimento e, por essa via, a menos crescimento pessoal.

Um estudo de 2025 com 560 adolescentes e jovens adultos italianos, entre 17 e 22 anos, encontrou um padrão mais preocupante: a ruminação predisse piores desfechos acadêmicos e de saúde física, e o enfrentamento por evitação mediou a relação entre ruminação e pior bem-estar emocional; estratégias de enfrentamento mais ativas, como atitude positiva e resolução de problemas, se associaram a um ajuste mais adequado (Mancone et al., 2025). Vale registrar que essa amostra é de adolescentes e jovens adultos italianos — o achado não deve ser generalizado automaticamente para adultos de outras faixas etárias ou contextos culturais.

Há ainda um componente comportamental da ruminação que vale mencionar: Eisma, Tõnus e de Jong (2022) mediram, com uma tarefa comportamental de aproximação-esquiva, a tendência automática de 62 estudantes a se aproximar ou se afastar de estímulos relacionados ao ex-parceiro. O desejo de manter o vínculo de apego se associou a um viés automático de aproximação do ex e a mais sofrimento pós-término; a ansiedade de apego se associou a mais ruminação e também a mais sofrimento. Os próprios autores destacam duas limitações: a amostra era de estudantes, o que limita a generalização, e o desenho era correlacional, o que impede conclusões sobre causa e efeito.

Quando a raiva deixa de ser só raiva

Nada do que foi descrito até aqui transforma raiva, ruminação ou idealização em sintoma de transtorno. São respostas comuns em pessoas atravessando um término, e não sintomas de transtorno por si sós. Ainda assim, há limiares que merecem atenção: quando a raiva vem acompanhada de ideação de autoagressão ou de agressão contra quem terminou, quando a ruminação ocupa grande parte do dia e compromete trabalho ou estudo por semanas, ou quando o sofrimento não muda de intensidade com o passar dos meses, a situação deixa de ser apenas “um término difícil” e passa a justificar avaliação profissional presencial. Não é possível, e não seria responsável, fazer esse tipo de avaliação a distância ou de forma genérica — cada história pede escuta individual.

Para ir além

Para quem quiser se aprofundar fora do consultório, três livros tratam esse tema de ângulos diferentes: How to Fix a Broken Heart, de Guy Winch; Why We Love, de Helen Fisher; e Hold Me Tight, de Sue Johnson.

Winch, G. (2018). How to fix a broken heart. Simon & Schuster.

Fisher, H. (2004). Why we love: The nature and chemistry of romantic love. Henry Holt and Company.

Johnson, S. (2008). Hold me tight: Seven conversations for a lifetime of love. Little, Brown and Company.

FAQ: perguntas frequentes sobre raiva depois do término

Quanto tempo a raiva depois de um término costuma durar?

Não há prazo descrito na pesquisa: os estudos disponíveis mediram a reorganização do apego após separação conjugal — não a duração da raiva — e mostram que esse processo varia de pessoa para pessoa conforme o estilo de apego e a regulação emocional (Sbarra & Borelli, 2019).

Não necessariamente. O que a pesquisa mediu foi o sofrimento após o término — não a raiva —, e esse sofrimento pode se associar a mais crescimento pessoal ou a menos, dependendo de como é processado (Marshall et al., 2013).

Pensamentos positivos sobre o ex-relacionamento não desaparecem só porque há raiva junto; um estudo de validação de escala indica inclusive que insistir no que havia de bom tende a se associar a mais dificuldade de seguir adiante do que insistir no que havia de ruim (Brenner & Vogel, 2015).

Depende do tipo de pensamento. Reflexão que processa o que aconteceu pode se associar a crescimento pessoal; ruminação associada a evitação tende a se associar a pior ajuste emocional (Marshall et al., 2013; Mancone et al., 2025).

Quando vem acompanhada de ideação de autoagressão ou agressão contra quem terminou, quando ocupa grande parte do dia por semanas, ou quando a intensidade não muda com o tempo — nesses casos, vale buscar avaliação presencial.

Próximo passo

Se a raiva, a ruminação ou a sensação de ter perdido pedaços de si mesmo depois do término — e a pesquisa sobre separação conjugal descreve a perda de clareza do autoconceito como parte da reorganização do apego (Sbarra & Borelli, 2019) — estão difíceis de atravessar sozinho, uma avaliação inicial de 90 minutos — individual ou em casal, presencial ou on-line — pode ajudar a entender o que está em jogo no seu caso específico e se há indicação de acompanhamento continuado. Não é um diagnóstico à distância: é uma primeira conversa estruturada para organizar o que fazer a seguir.

Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo

Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.

Atuo em duas frentes de alta complexidade:

Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.

Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.

Credenciais e Formação:

Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.

Canais Oficiais:

fabiocalo.com.br · Instagram @fabiocalo · YouTube @ofabiocalo · LinkedIn fabioaugustocalo

Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.

Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental

Referências

Brenner, R. E., & Vogel, D. L. (2015). Measuring thought content valence after a breakup: Development of the Positive and Negative Ex-Relationship Thoughts (PANERT) scale. Journal of Counseling Psychology, 62(3), 476–487. https://doi.org/10.1037/cou0000073

Eisma, M. C., Tõnus, D., & de Jong, P. J. (2022). Desired attachment and breakup distress relate to automatic approach of the ex-partner. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 75, Article 101713. https://doi.org/10.1016/j.jbtep.2021.101713

Fisher, H. E., Brown, L. L., Aron, A., Strong, G., & Mashek, D. (2010). Reward, addiction, and emotion regulation systems associated with rejection in love. Journal of Neurophysiology, 104(1), 51–60. https://doi.org/10.1152/jn.00784.2009

Mancone, S., Celia, G., Bellizzi, F., Zanon, A., & Diotaiuti, P. (2025). Emotional and cognitive responses to romantic breakups in adolescents and young adults: The role of rumination and coping mechanisms in life impact. Frontiers in Psychiatry, 16, Article 1525913. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2025.1525913

Marshall, T. C., Bejanyan, K., & Ferenczi, N. (2013). Attachment styles and personal growth following romantic breakups: The mediating roles of distress, rumination, and tendency to rebound. PLoS ONE, 8(9), Article e75161. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0075161

Murray, S. L., Griffin, D. W., Derrick, J. L., Harris, B., Aloni, M., & Leder, S. (2011). Tempting fate or inviting happiness? Unrealistic idealization prevents the decline of marital satisfaction. Psychological Science, 22(5), 619–626. https://doi.org/10.1177/0956797611403155

Murray, S. L., Holmes, J. G., & Griffin, D. W. (1996). The self-fulfilling nature of positive illusions in romantic relationships: Love is not blind, but prescient. Journal of Personality and Social Psychology, 71(6), 1155–1180. https://doi.org/10.1037/0022-3514.71.6.1155

Sbarra, D. A., & Borelli, J. L. (2013). Heart rate variability moderates the association between attachment avoidance and self-concept reorganization following marital separation. International Journal of Psychophysiology, 88(3), 253–260. https://doi.org/10.1016/j.ijpsycho.2012.04.004

Sbarra, D. A., & Borelli, J. L. (2019). Attachment reorganization following divorce: Normative processes and individual differences. Current Opinion in Psychology, 25, 71–75. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2018.03.008

Slotter, E. B., Gardner, W. L., & Finkel, E. J. (2010). Who am I without you? The influence of romantic breakup on the self-concept. Personality and Social Psychology Bulletin, 36(2), 147–160. https://doi.org/10.1177/0146167209352250

van der Watt, A. S. J., Spies, G., Roos, A., Lesch, E., & Seedat, S. (2021). Functional neuroimaging of adult-to-adult romantic attachment separation, rejection, and loss: A systematic review. Journal of Clinical Psychology in Medical Settings, 28(3), 637–648. https://doi.org/10.1007/s10880-020-09757-x

Fábio Caló, psicólogo clínico e mestre pela UnB, em Brasília
Sou Fábio Caló, psicólogo clínico e Mestre pela UnB com 27 anos de prática baseada em evidências. Especialista em intervenções de alta complexidade para crises conjugais (Método Gottman) e tratamento do consumo problemático de pornografia, através de protocolo clínico próprio. Ajudo pacientes e casais a superarem padrões destrutivos com estratégias científicas e resultados mensuráveis.

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