Sinais de dislexia são indícios precoces em linguagem oral, percepção dos sons das palavras e nomeação de objetos que podem aparecer anos antes de a criança aprender a ler — e por isso merecem atenção já na educação infantil, não apenas quando a alfabetização “não anda”.
Na prática clínica, recebo com frequência famílias que só buscam avaliação quando a criança já está na 2ª ou 3ª série repetindo a mesma dificuldade de leitura ano após ano. O problema é que, a essa altura, parte da janela de maior plasticidade cerebral para intervenção já passou (Sanfilippo et al., 2020).
Historicamente, a pesquisa sobre leitura identificou marcadores comportamentais e familiares que aparecem ainda no período pré-escolar — época de maior plasticidade cerebral para intervenções direcionadas à leitura (Sanfilippo et al., 2020) — muito antes de qualquer atraso formal em leitura ficar evidente. Entender esses sinais ajuda pais e profissionais a agir no momento em que a intervenção tem mais chance de funcionar.
Neste artigo, você lerá:
O que é dislexia e por que os sinais importam
A dislexia do desenvolvimento é um transtorno específico de aprendizagem com base neurobiológica que compromete, principalmente, o reconhecimento de palavras e a decodificação da leitura. Uma meta-análise com estudos de todo o mundo estimou a prevalência global em 7,10% das crianças do ensino fundamental (IC 95%: 6,27%–7,97%), sendo significativamente maior em meninos (9,22%) do que em meninas (4,66%) (Yang et al., 2022). A mesma meta-análise não encontrou diferença significativa de prevalência entre sistemas de escrita alfabéticos e logográficos — resultado que os próprios autores pedem para ler com cautela, porque a maioria dos estudos incluídos tinha amostras pequenas e definições operacionais diversas (Yang et al., 2022).
Isso significa que, em uma sala de aula de 30 alunos, é estatisticamente esperado que cerca de dois apresentem a condição (Yang et al., 2022), e parte deles pode seguir sem diagnóstico, porque a dislexia costuma ser identificada só depois de a criança falhar repetidamente em aprender a ler (Sanfilippo et al., 2020). Além disso, a dislexia frequentemente se sobrepõe a outros problemas do neurodesenvolvimento: uma entrevista telefônica estruturada com os pais de 1.688 gêmeos de nove anos encontrou um aumento de mais de oito vezes na prevalência de outros problemas do neurodesenvolvimento entre crianças disléxicas, em comparação com leitores típicos (Brimo et al., 2021). Nesse mesmo estudo, sintomas de desatenção, problemas de linguagem oral e percepção sensorial atípica previram estatisticamente o status de dislexia, enquanto traços de inflexibilidade associados ao espectro autista mostraram associação inversa (Brimo et al., 2021).
Entender esse recorte diagnóstico evita duas armadilhas comuns: tratar qualquer atraso pontual na leitura como dislexia, e esperar que a criança “simplesmente amadureça” um padrão que tem base neurobiológica e não se resolve apenas com mais exposição a livros ou mais tempo de prática escolar.
Sinais de dislexia na educação infantil
Sinais de dislexia na pré-escola não envolvem “trocar letras” — isso só fica visível quando a criança já está sendo alfabetizada. Antes disso, o que a pesquisa cognitivo-comportamental identifica são déficits precoces de alfabetização emergente e marcadores de risco que antecedem a dificuldade de leitura: consciência fonológica reduzida (dificuldade em perceber que “gato” e “galo” começam com o mesmo som), lentidão para nomear rapidamente objetos e cores e histórico familiar de dificuldade de leitura (Sanfilippo et al., 2020).
Esses marcadores podem ser observados e medidos já na educação infantil, segundo a revisão publicada na Pediatrics — o que abre uma janela de identificação bem anterior ao fracasso escolar repetido que costuma motivar a consulta inicial (Sanfilippo et al., 2020).
Na prática do dia a dia, esses sinais aparecem em comportamentos simples: a criança que tem dificuldade em acompanhar rimas de música infantil, que demora para dizer rapidamente o nome de cores ou animais em um jogo, ou que troca com frequência o início de palavras parecidas em brincadeiras de conversa. Nenhum desses comportamentos isolados fecha diagnóstico — o que a revisão recomenda observar é o padrão combinado desses marcadores, não um sinal isolado (Sanfilippo et al., 2020).
A dislexia é hereditária?
Sim, em grande parte. O mesmo estudo sueco com gêmeos estimou a herdabilidade da dislexia em 52%, com prevalência de 8% na amostra e razão de 1,5 menino para cada menina (Brimo et al., 2021). Na prática, isso quer dizer que, se um dos pais ou um irmão mais velho teve dificuldade de leitura, a atenção aos sinais precoces no filho mais novo deveria ser redobrada — não porque o diagnóstico seja automático, mas porque o risco de base já é maior.
O que os exames de imagem mostram sobre o cérebro antes da leitura
Em 2012, pesquisadores do Boston Children’s Hospital usaram ressonância magnética funcional para observar 36 crianças pré-escolares (idade média de 5 anos e meio) durante uma tarefa de julgamento fonológico — decidir se duas palavras começavam com o mesmo som. As crianças com histórico familiar de dislexia mostraram ativação reduzida em regiões occipitotemporais (bilaterais) e temporoparietais do hemisfério esquerdo, em comparação com crianças sem esse histórico, pareadas por idade e QI — o mesmo padrão já descrito em crianças e adultos com diagnóstico confirmado de dislexia (Raschle et al., 2012). Um estudo anterior do mesmo grupo, usando ressonância estrutural, encontrou volume reduzido de substância cinzenta nas regiões occipitotemporal esquerda, parietotemporal bilateral, giro fusiforme esquerdo e giro lingual direito em crianças pré-leitoras com histórico familiar da condição — e, nas regiões occipitotemporal e parietotemporal do hemisfério esquerdo, o volume de substância cinzenta se correlacionou positivamente com o desempenho em nomeação automática rápida, uma habilidade que também está entre os sinais precoces observáveis (Raschle et al., 2011).
É importante fazer uma ressalva que o próprio estudo de 2012 deixa explícita: os autores descrevem o achado como um indício de que as diferenças cerebrais antecedem o fracasso de leitura — e afirmam que ainda seriam necessários estudos longitudinais para saber se esses padrões podem servir como “pré-marcadores” de risco (Raschle et al., 2012). Ou seja: o exame de ressonância magnética não é, até hoje, um método clínico de triagem para dislexia — é uma peça de evidência sobre o mecanismo cerebral do problema, não uma ferramenta diagnóstica disponível no consultório.
Como funciona a identificação precoce na prática
O que efetivamente está disponível e recomendado para a prática clínica — pediátrica, psicológica e fonoaudiológica — é a triagem comportamental e cognitiva, não a neuroimagem. A revisão da Pediatrics recomenda que pediatras e outros profissionais da infância avaliem, já antes da entrada na escola, consciência fonológica, conhecimento da correspondência entre letras e sons, velocidade de nomeação e histórico familiar de dificuldade de leitura como sinais de alerta combinados (Sanfilippo et al., 2020).
A dislexia costuma permanecer sem diagnóstico até a criança falhar repetidamente em aprender a ler na escola — um atraso que, segundo a mesma revisão, também pode ser precursor de comorbidades psiquiátricas como ansiedade e depressão (Sanfilippo et al., 2020). Essa identificação precoce tem peso prático além do acadêmico: uma meta-análise com 34 estudos e mais de 16 mil participantes, incluindo 2.491 leitores classificados como pobres, encontrou associação estatisticamente significativa entre leitura pobre e problemas de internalização — com tamanho de efeito moderado para ansiedade (d = 0,41) e menor, mas presente, para depressão (d = 0,23), quando comparados a leitores típicos (Francis et al., 2019). Na minha experiência clínica, atraso no diagnóstico de dislexia frequentemente se mistura, na adolescência, com queixas de ansiedade de desempenho e baixa autoestima acadêmica que já poderiam ter sido evitadas ou atenuadas com identificação precoce.
O que fazer quando os sinais aparecem
Identificar sinais de dislexia não é a mesma coisa que fechar diagnóstico — isso exige avaliação formal com fonoaudiólogo, psicopedagogo ou neuropsicólogo. Mas a intervenção precoce em habilidades de consciência fonológica tem evidência real de funcionar quando bem aplicada: um ensaio randomizado por conglomerados (cluster), com 104 pré-escolares com atrasos de alfabetização emergente distribuídos em 39 salas de aula, encontrou que 82% das crianças no grupo que recebeu um currículo suplementar de consciência fonológica atingiram o critério esperado para o jardim de infância na medida de fluência de som inicial (First Sound Fluency), contra 34% no grupo de comparação (Goldstein et al., 2017).
Só que esse resultado positivo, obtido em condições controladas de pesquisa, não se repetiu da mesma forma quando um programa de tipo semelhante foi testado em condições reais de implementação: um estudo com 98 salas de pré-escola e 281 crianças de risco não encontrou efeito significativo na análise por intenção de tratar quando o programa foi aplicado por professores e por auxiliares comunitários vinculados a uma iniciativa local, fora do ambiente controlado dos ensaios de eficácia anteriores do próprio programa (Piasta et al., 2023). Apenas uma análise secundária, do tipo variável instrumental considerando a dose efetivamente recebida, encontrou um efeito pontual sobre a escrita de letras. Essa divergência é um recado importante: eficácia em estudo controlado não garante o mesmo resultado em qualquer sala de aula — a qualidade da implementação pode anular o efeito do programa escolhido.
Na prática, o caminho que costumo indicar é: observar os sinais descritos acima, buscar avaliação fonoaudiológica e psicológica assim que a suspeita surgir — sem esperar o fracasso escolar se repetir por anos — e, se confirmada a necessidade, garantir que a intervenção escolhida seja acompanhada por profissional qualificado, não apenas aplicada de forma genérica.
Antes da consulta, vale anotar em quais contextos os sinais aparecem com mais frequência — em casa, na escola, em atividades específicas como músicas e jogos de palavras — porque esse registro ajuda o profissional a diferenciar entre uma variação esperada do desenvolvimento e um padrão combinado de marcadores que justifica avaliação formal.
Para ir além
Para quem quiser se aprofundar na literatura sobre o tema, duas leituras complementares que recomendo:
Shaywitz, S. E. (2003). Overcoming dyslexia: A new and complete science-based program for reading problems at any level. Knopf.
Eide, B. L., & Eide, F. F. (2011). The dyslexic advantage: Unlocking the hidden potential of the dyslexic brain. Hudson Street Press.
FAQ: perguntas frequentes sobre sinais de dislexia
Quais sinais de dislexia aparecem em crianças pequenas, antes da alfabetização?
Antes da alfabetização, os sinais descritos na pesquisa são dificuldade em perceber sons dentro das palavras (consciência fonológica), lentidão para nomear objetos e cores rapidamente e histórico familiar de dificuldade de leitura (Sanfilippo et al., 2020).
A dislexia é hereditária?
Sim. Um estudo com gêmeos estimou a herdabilidade em 52%, com maior prevalência entre meninos (Brimo et al., 2021).
Quem diagnostica dislexia?
O diagnóstico formal é multiprofissional, geralmente envolvendo fonoaudiólogo, psicopedagogo e psicólogo ou neuropsicólogo, com exames complementares para descartar causas auditivas e visuais, quando indicado pelo pediatra.
Dislexia tem cura?
Não existe “cura” no sentido de reversão biológica, mas intervenção fonológica precoce e bem implementada melhora significativamente as habilidades de consciência fonológica que preparam a leitura (Goldstein et al., 2017), ainda que os resultados dependam muito da qualidade da implementação (Piasta et al., 2023).
Quando devo suspeitar de dislexia no meu filho?
Quando há histórico familiar de dificuldade de leitura combinado a dificuldade persistente em perceber sons semelhantes entre palavras ou em nomear objetos rapidamente, mesmo antes da alfabetização formal (Sanfilippo et al., 2020).
Próximo passo
Se você reconheceu alguns desses sinais no seu filho, ou se há histórico de dificuldade de leitura na família, o próximo passo não é pesquisar mais artigos — é agendar uma avaliação inicial. Na Clínica Fábio Caló, a consulta inicial tem 90 minutos e serve justamente para mapear esses sinais e indicar se e qual tipo de avaliação complementar (fonoaudiológica, psicopedagógica ou neuropsicológica) faz sentido no caso específico do seu filho.
Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Atuo em duas frentes de alta complexidade:
Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.
Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.
Canais Oficiais:
fabiocalo.com.br · Instagram @fabiocalo · YouTube @ofabiocalo · LinkedIn fabioaugustocalo
Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.
Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental
Referências
Brimo, K., Dinkler, L., Gillberg, C., Lichtenstein, P., Lundström, S., & Åsberg Johnels, J. (2021). The co-occurrence of neurodevelopmental problems in dyslexia. Dyslexia, 27(3), 277–293. https://doi.org/10.1002/dys.1681
Francis, D. A., Caruana, N., Hudson, J. L., & McArthur, G. M. (2019). The association between poor reading and internalising problems: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 67, 45–60. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2018.09.002
Goldstein, H., Olszewski, A., Haring, C., Greenwood, C. R., McCune, L., Carta, J., Atwater, J., Guerrero, G., Schneider, N., McCarthy, T., & Kelley, E. S. (2017). Efficacy of a supplemental phonemic awareness curriculum to instruct preschoolers with delays in early literacy development. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 60(1), 89–103. https://doi.org/10.1044/2016_JSLHR-L-15-0451
Piasta, S. B., Logan, J. A. R., Zettler-Greeley, C. M., Bailet, L. L., Lewis, K., & Thomas, L. J. G. (2023). Small-group, emergent literacy intervention under two implementation models: Intent-to-treat and dosage effects for preschoolers at risk for reading difficulties. Journal of Learning Disabilities, 56(3), 225–240. https://doi.org/10.1177/00222194221079355
Raschle, N. M., Chang, M., & Gaab, N. (2011). Structural brain alterations associated with dyslexia predate reading onset. NeuroImage, 57(3), 742–749. https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2010.09.055
Raschle, N. M., Zuk, J., & Gaab, N. (2012). Functional characteristics of developmental dyslexia in left-hemispheric posterior brain regions predate reading onset. Proceedings of the National Academy of Sciences, 109(6), 2156–2161. https://doi.org/10.1073/pnas.1107721109
Sanfilippo, J., Ness, M., Petscher, Y., Rappaport, L., Zuckerman, B., & Gaab, N. (2020). Reintroducing dyslexia: Early identification and implications for pediatric practice. Pediatrics, 146(1), Article e20193046. https://doi.org/10.1542/peds.2019-3046
Yang, L., Li, C., Li, X., Zhai, M., An, Q., Zhang, Y., Zhao, J., & Weng, X. (2022). Prevalence of developmental dyslexia in primary school children: A systematic review and meta-analysis. Brain Sciences, 12(2), Article 240. https://doi.org/10.3390/brainsci12020240