Compulsão sexual: o que é, sintomas, CID-11 e tratamento

Homem de terno sentado na cama de um hotel à noite, olhando a aliança, com o celular virado para baixo — compulsão sexual e perda de controle

Compulsão sexual é o nome popular do transtorno do comportamento sexual compulsivo, classificado pela Organização Mundial da Saúde na CID-11 sob o código 6C72: um padrão persistente de falha em controlar impulsos sexuais intensos e repetitivos, que se transforma em comportamento repetido e causa sofrimento acentuado ou prejuízo na vida da pessoa (World Health Organization, 2025). Não é sinônimo de gostar muito de sexo. É perder o comando sobre ele.

Em 27 anos de consultório, a frase que mais ouço de quem chega com esse problema não é sobre prazer. É sobre controle: “eu prometo que é a última vez, e não é”. O homem que me procura costuma ser competente em quase tudo — dirige equipes, fecha contratos, decide sob pressão — e falha justamente no ponto em que achava que bastava força de vontade. É esse descompasso que este artigo explica.

Aqui você vai entender o que a CID-11 exige para falar em compulsão sexual, por que desejo alto não é doença, o que os estudos de cérebro mostram (e o que não mostram), quais mitos não têm sustentação e o que a evidência diz sobre tratamento.

Neste artigo, você lerá:

O que é compulsão sexual (e por que também se chama hipersexualidade)

Em uma frase: compulsão sexual é a perda persistente de controle sobre impulsos e comportamentos sexuais, mantida apesar das consequências e acompanhada de sofrimento ou prejuízo (World Health Organization, 2025).

O comportamento em si pode ser comum — masturbação, pornografia, sexo casual, cibersexo. O que define o quadro não é o comportamento, e sim a relação da pessoa com ele: tentativas repetidas e fracassadas de reduzir, o sexo ocupando o centro da vida a ponto de empurrar para fora saúde, trabalho e relações, e a repetição mesmo quando o prazer já quase não existe (World Health Organization, 2025).

Os outros nomes: hipersexualidade, satiríase, ninfomania, vício em sexo

A mesma realidade clínica aparece na literatura e no consultório com vários rótulos: “transtorno hipersexual”, “vício em sexo”, “vício em pornografia”, “compulsividade sexual” e “comportamento sexual fora de controle” (Briken et al., 2024). Hipersexualidade é o termo usado, por exemplo, na pesquisa sobre doenças neurológicas (Tayim et al., 2024). Satiríase (para homens) e ninfomania (para mulheres) são nomes antigos, que não correspondem ao nome do diagnóstico na CID-11. Se você chegou aqui buscando por “satiríase”, há um texto específico em Satiríase: vício sexual masculino.

A escolha do nome não é detalhe acadêmico. “Vício” puxa o quadro para o modelo das drogas; “compulsão”, para o modelo do transtorno obsessivo; “impulso”, para o do controle de impulsos. A OMS escolheu o último: na CID-11, o transtorno está no grupo dos transtornos do controle de impulsos, ao lado do transtorno explosivo intermitente (World Health Organization, 2025; Antons et al., 2022).

Desejo sexual alto não é compulsão sexual

Este é o ponto que mais tranquiliza — e o que mais incomoda — quem me procura. A própria CID-11 diz que pessoas com alto interesse e alta frequência de comportamento sexual, por exemplo por libido elevada, que não apresentam perda de controle nem sofrimento ou prejuízo significativo, não devem receber o diagnóstico (World Health Organization, 2025). O mesmo vale para a masturbação frequente na adolescência, mesmo quando gera angústia, e para períodos curtos de aumento da atividade sexual em fases de transição, como mudar de cidade ou terminar um relacionamento.

Traduzindo para a prática: a pergunta clínica nunca é “quanto”. É “você consegue parar quando decide parar, e o que isso está custando?”. Um homem que transa todos os dias com a esposa e está bem não tem nada a tratar. Um homem que jurou não abrir mais o aplicativo de encontros durante a viagem de trabalho e abriu pela quarta noite seguida tem um problema de controle — ainda que a frequência dele seja menor que a do primeiro.

Compulsão sexual é doença? O que dizem a CID-11 e o DSM-5

Em uma frase: sim, para a Organização Mundial da Saúde é um transtorno mental com código próprio (6C72); para o manual americano DSM-5, não — e essa divergência explica boa parte da confusão que você encontra na internet.

CID-11: o código 6C72 e os critérios

A CID-11 exige um padrão persistente de falha em controlar impulsos sexuais intensos e repetitivos, que se manifesta em pelo menos um de quatro sinais (World Health Organization, 2025):

1. O sexo virou o centro da vida

O comportamento sexual repetitivo passa a ocupar um lugar tão central que a pessoa negligencia saúde, cuidado pessoal, outros interesses e responsabilidades.

2. Tentativas fracassadas de reduzir

Houve numerosos esforços sem sucesso para controlar ou reduzir de forma significativa o comportamento.

3. Continuar apesar das consequências

O comportamento se mantém mesmo com consequências adversas — conflito conjugal, prejuízo financeiro ou legal, impacto na saúde.

4. Continuar sem satisfação

A pessoa segue repetindo o comportamento mesmo obtendo dele pouca ou nenhuma satisfação.

Além disso, o padrão precisa durar um período prolongado (a CID-11 dá como referência 6 meses ou mais), não pode ser melhor explicado por outra condição — um episódio de mania, uma doença neurológica, o efeito de um medicamento ou substância — e tem de causar sofrimento acentuado ou prejuízo importante na vida pessoal, familiar, social, acadêmica ou profissional (World Health Organization, 2025).

DSM-5: por que o "transtorno hipersexual" ficou de fora

Kafka propôs o “transtorno hipersexual” para o DSM, descrevendo-o como um transtorno do desejo sexual com componente de impulsividade e com especificadores por tipo de comportamento (Kafka, 2010). A proposta foi rejeitada, e o DSM-5 não inclui o diagnóstico — embora o interesse clínico e científico pelo tema tenha continuado (Montgomery-Graham, 2017).

É por isso que você encontra textos afirmando que “compulsão sexual não é doença”: eles usam o DSM-5 como régua e ignoram a CID-11. A CID é a classificação da Organização Mundial da Saúde — e nela o diagnóstico existe.

O que a CID-11 exclui: o sofrimento que é só moral

Há um detalhe da CID-11 que considero o mais importante do diagnóstico. O sofrimento que decorre inteiramente de julgamento moral ou de desaprovação sobre os próprios impulsos e comportamentos sexuais não basta para o diagnóstico (World Health Organization, 2025). O texto oficial dá exemplos: o jovem religioso que acredita que nunca deveria se masturbar, a pessoa angustiada com a própria atração homossexual.

A pesquisa sustenta essa cautela. Um modelo apoiado em revisão sistemática com meta-análise propõe que a sensação de estar “viciado” em pornografia pode ser, em muitos casos, melhor explicada pela incongruência moral — o choque entre o que a pessoa faz e o que acredita que deveria fazer — do que por perda de controle (Grubbs et al., 2019). E, em dados de 42 países, os valores morais sobre a pornografia ajudaram a distinguir perfis diferentes de usuários, inclusive entre os de risco aumentado (Bőthe et al., 2025). O comitê da Sociedade Internacional de Medicina Sexual alertou, na mesma linha, para os riscos da autorrotulação e de patologizar desejo alto ou comportamento sexual não heteronormativo (Briken et al., 2024).

Na prática, isso muda a conduta. Antes de tratar “compulsão”, eu preciso saber se há perda de controle de fato ou se há um conflito de valores que se apresenta com a linguagem do vício. Os dois fazem sofrer. Não se tratam da mesma forma.

Quando se perde o controle: sinais e sintomas da compulsão sexual

Homem sozinho no escritório à noite com a mão parada sobre o celular virado — sinais de perda de controle na compulsão sexual

Em uma frase: o sintoma central da compulsão sexual não é a frequência, é a quebra repetida da própria decisão — o “de novo” que acontece apesar do custo.

Os sinais que aparecem no consultório

Os quatro sinais da CID-11 descritos acima raramente chegam com esse nome. Chegam assim: horas que somem entre uma reunião e outra; a madrugada que começa com “só cinco minutos”; o segundo celular; o gasto que não fecha no extrato; a promessa feita à esposa depois de uma descoberta, e quebrada semanas depois; o sexo que já não dá prazer, mas alivia.

Esse último ponto merece atenção. A CID-11 registra que as pessoas com o transtorno frequentemente recorrem ao comportamento sexual em resposta a depressão, ansiedade, tédio, solidão ou outros estados emocionais negativos (World Health Organization, 2025). No meu trabalho, é quase regra: o comportamento funciona como regulador de emoção. É por isso que ele volta com mais força nas semanas de maior pressão — e é por isso que só “parar” não resolve.

O que costuma vir junto

A compulsão sexual raramente vem sozinha. Num estudo com entrevistas clínicas estruturadas, 91,2% dos participantes com o transtorno preenchiam critério para pelo menos um outro transtorno mental, contra 66% dos participantes sem ele; depressão maior apareceu em 39,7% (Ballester-Arnal et al., 2020). Em São Paulo, num grupo de 86 homens que buscavam tratamento, 72% tinham ao menos um diagnóstico psiquiátrico associado, e os transtornos de humor estavam ligados a pontuações mais altas de compulsividade sexual (Scanavino et al., 2013).

Como saber se sou compulsivo sexual?

Existe uma escala moderna, construída diretamente sobre os critérios da CID-11: a CSBD-19, validada no International Sex Survey com 82.243 participantes de 42 países e disponível em 26 idiomas, inclusive português (Bőthe et al., 2023). Nela, pontuações de 50 ou mais (numa escala de 19 a 76) indicam alto risco para o transtorno.

Uma ressalva que faço questão de deixar clara: escala é triagem, não diagnóstico. Uma pontuação alta indica que vale uma avaliação clínica; não confirma o transtorno, porque não separa sozinha perda de controle de sofrimento moral, nem descarta outras causas médicas ou psiquiátricas. Quem fecha diagnóstico é a entrevista clínica.

Quantas pessoas têm compulsão sexual

Nos Estados Unidos, numa amostra nacional representativa de 2.325 adultos de 18 a 50 anos, 8,6% ficaram acima do ponto de corte de sofrimento ou prejuízo clinicamente relevante ligado à dificuldade de controlar impulsos sexuais: 10,3% dos homens e 7,0% das mulheres (Dickenson et al., 2018). No International Sex Survey, 4,8% dos participantes estavam em alto risco — e apenas 14% das pessoas com o transtorno já tinham buscado tratamento (Bőthe et al., 2023).

E no Brasil? Não existe estudo de prevalência nacional representativo. O dado mais próximo vem da subamostra brasileira do International Sex Survey: 279 dos 3.572 participantes do Brasil (7,81%) ficaram na faixa de alto risco (Bőthe et al., 2023). É uma amostra de conveniência e não representa a população do país — mas mostra que o problema está longe de ser raro por aqui.

Impulsos sexuais e pensamentos obsessivos: o que acontece no cérebro

Em uma frase: há estudos que mostram no cérebro de quem tem compulsão sexual um padrão parecido com o das dependências — mais “querer” do que “gostar” —, mas há também estudos que não encontram esse padrão, e a ciência ainda não fechou a questão.

Querer sem gostar

Homem à noite na cozinha, olhar fixo e sem prazer, ilustrando o querer sem gostar dos impulsos sexuais

Num estudo de ressonância magnética funcional, 19 homens com comportamento sexual compulsivo e 19 voluntários saudáveis assistiram a vídeos explícitos. Os homens com o quadro relataram mais desejo, mas não mais prazer; e mostraram maior ativação de uma rede formada pelo cíngulo anterior dorsal, pelo estriado ventral e pela amígdala — as mesmas regiões envolvidas na reatividade a pistas de drogas (Voon et al., 2014).

Um estudo com 28 homens em busca de tratamento e 24 controles refinou o achado. A diferença não apareceu na resposta às imagens eróticas em si, e sim na resposta às pistas que as anunciavam: o estriado ventral dos homens com uso problemático reagia mais à antecipação. E essa sensibilidade se associou à gravidade do problema, à quantidade semanal de pornografia e ao número de masturbações (Gola et al., 2017).

Isso conversa com o que vejo na clínica. O paciente descreve a tensão da antecipação — o hotel, a noite livre, a esposa viajando — com muito mais intensidade do que o ato. O que prende não é o prazer; é o impulso que se acende antes dele.

O contraponto: nem todo estudo encontra o padrão de dependência

Seria desonesto parar aí. Um estudo com potenciais evocados (eletroencefalografia) em 122 pessoas encontrou o oposto do esperado: entre os que relatavam dificuldade de regular o uso de conteúdo sexual e tinham desejo sexual alto, a resposta cerebral às imagens sexuais foi menor, e não maior — padrão que os autores consideraram diferente do modelo de dependência química (Prause et al., 2015). E pesquisadores da área argumentam que a frequência com que alguém faz algo não prova que exista um vício, e que transportar métodos da pesquisa com drogas para os comportamentos pode produzir conclusões inválidas (Grubbs & Boness, 2025).

Minha leitura: os estudos de imagem são pequenos, e ainda não dá para dizer que o cérebro de quem tem compulsão sexual “é igual” ao de um dependente químico. O que eles autorizam é mais modesto e, clinicamente, mais útil: a antecipação e as pistas do ambiente têm peso real. É nelas que o tratamento mexe.

Emoção, estresse e hormônios

Uma revisão sistemática liderada por pesquisadores da Universidade de São Paulo reuniu 10 estudos sobre marcadores biológicos periféricos. Os achados apontam para o eixo do estresse — alterações na metilação de genes ligados ao cortisol, cortisol e ACTH elevados após o teste de supressão com dexametasona —, além de ocitocina e LH aumentados e associação entre testosterona salivar e sintomas em homens (Ferreira et al., 2025). Os próprios autores chamam os achados de preliminares, com amostras pouco diversas e sem replicação. Não há, hoje, exame de laboratório que diagnostique compulsão sexual.

Quando a causa é neurológica ou é o remédio

Aqui está a parte que mais importa para quem viu o problema surgir depois de um diagnóstico neurológico ou do início de uma medicação. Uma revisão de 79 estudos, com 32.662 pacientes, mostrou que a hipersexualidade em doenças neurológicas foi estudada sobretudo na doença de Parkinson (55,6%) e nas demências (12,7%), e que alterações nas vias de dopamina aparecem como mecanismo — em parte com base no que acontece quando a medicação é suspensa (Tayim et al., 2024).

Um estudo avaliou 3.090 pessoas com Parkinson: o comportamento sexual compulsivo apareceu em 3,5%, e os transtornos do controle de impulsos em geral foram mais frequentes em quem usava agonistas dopaminérgicos (17,1% contra 6,9%; razão de chances de 2,72) (Weintraub et al., 2010). No Sul do Brasil, entre 90 pacientes com Parkinson, 42 tinham sintomas de transtorno do controle de impulsos; em 21,4% deles o sintoma era hipersexualidade, e o uso de agonista dopaminérgico foi o principal fator de risco (Carvalho Neto et al., 2026).

Por isso a CID-11 exige descartar condição médica e efeito de medicamento antes do diagnóstico (World Health Organization, 2025). Se você toma remédio para Parkinson, ou outro medicamento que atue sobre a dopamina, e percebeu uma mudança no comportamento sexual, a primeira conversa é com o seu neurologista — nunca suspenda a medicação por conta própria.

O que não tem evidência: "serotonina e dopamina em níveis altos"

Infográfico comparando mitos sobre compulsão sexual com o que a evidência científica mostra

Muitos textos em português — inclusive a versão anterior deste artigo — afirmam que níveis altos de serotonina, dopamina e noradrenalina estariam por trás da compulsão sexual. Fui buscar a evidência. Na base PubMed, a combinação de hipersexualidade ou comportamento sexual compulsivo com serotonina ou noradrenalina e medida de níveis devolveu 22 estudos. Nenhum deles mediu esses neurotransmissores em pessoas com compulsão sexual. A revisão de biomarcadores da USP também não traz medidas de serotonina ou noradrenalina (Ferreira et al., 2025). A afirmação não se sustenta, e eu a retirei.

Tipos de compulsão sexual: formas de expressão, não "níveis"

Em uma frase: a CID-11 descreve as formas que a compulsão sexual pode assumir, mas não divide o transtorno em níveis ou graus oficiais.

As formas que a CID-11 descreve

Segundo a OMS, o transtorno pode se expressar em sexo com outras pessoas, masturbação, uso de pornografia, cibersexo, sexo por telefone e outras formas de comportamento sexual repetitivo (World Health Organization, 2025). Na proposta americana, Kafka também previa especificar o tipo de comportamento predominante (Kafka, 2010). Na prática, a maioria dos homens que atendo combina mais de uma forma — a pornografia costuma ser a porta, e os encontros vêm depois.

Os "três níveis" que circulam nas redes

Se você buscou “tipos e níveis de compulsão sexual”, provavelmente encontrou a ideia de que o quadro se divide em três níveis de gravidade. Procurei uma classificação validada que sustentasse isso e não encontrei: a entrada 6C72 da CID-11 não tem subcódigos de gravidade, e na busca que fiz na literatura sobre subtipos não apareceu divisão em três níveis. Gravidade existe, claro — mas é avaliada caso a caso, pelo prejuízo e pela perda de controle, não por uma escada de três degraus.

Os perfis que a pesquisa encontrou

O que a ciência tem são perfis empíricos. Com dados de 66.994 pessoas em 42 países, pesquisadores identificaram seis perfis de uso de pornografia, dois deles de risco aumentado — um com desaprovação moral e outro sem ela (Bőthe et al., 2025). Em Israel, um estudo que acompanhou os mesmos participantes desde 2018 encontrou quatro trajetórias: sem o transtorno (80,54%), “recuperação” (11,68%), início tardio (4,23%) e crônica (3,55%) (Efrati et al., 2026). Voltarei a esse último achado quando falar de cura.

Compulsão sexual em mulheres

A maior parte da pesquisa foi feita com homens. Uma revisão sistemática de 58 estudos mostrou que, em média, a gravidade dos sintomas é menor nas mulheres, mas também que não há estimativas precisas de prevalência entre elas; nas mulheres, o quadro aparece associado a impulsividade, sintomas de TDAH, transtorno obsessivo-compulsivo e histórico de abuso sexual na infância (Kowalewska et al., 2020). A diferença entre os sexos pode ser menor do que se imaginava: no estudo americano, 7,0% das mulheres estavam acima do ponto de corte, contra 10,3% dos homens (Dickenson et al., 2018).

Compulsão sexual e vício em pornografia: qual a diferença

Em uma frase: o uso problemático de pornografia é uma das formas de compulsão sexual; a compulsão sexual é o quadro mais amplo, que pode incluir ou não a pornografia.

A literatura trata o uso problemático de pornografia como um subtipo do transtorno do comportamento sexual compulsivo (Mestre-Bach & Potenza, 2024), e as revisões de tratamento estudam os dois juntos (Antons et al., 2022). Ou seja: todo quadro de vício em pornografia que preenche os critérios da CID-11 é um quadro de compulsão sexual, mas nem toda compulsão sexual passa pela pornografia — há homens cujo problema é exclusivamente com encontros, aplicativos ou serviços sexuais pagos.

A distinção importa para o tratamento. Quando a pornografia é a forma principal, o trabalho sobre ambiente, pistas e acesso é mais direto. Quando o comportamento envolve outras pessoas, entram também o sigilo e a traição, que atingem o casamento de outra maneira.

Reuni os critérios, os números de prevalência e o que a evidência sustenta sobre tratamento especificamente para a pornografia no guia Vício em pornografia. Se o seu caso é esse, é lá que está o aprofundamento.

Tratamento da compulsão sexual: o que a evidência sustenta

Paciente em sessão de psicoterapia em consultório com poltronas de couro — tratamento da compulsão sexual

Em uma frase: psicoterapia — sobretudo terapia cognitivo-comportamental e terapia de aceitação e compromisso — é o tratamento de primeira escolha; medicação pode entrar como apoio, sem indicação formal, e a qualidade geral da evidência ainda é limitada.

Psicoterapia: TCC e ACT

A síntese mais recente é uma meta-análise de 2025 com 20 estudos e 2.021 participantes, sobre uso problemático de pornografia. Quem recebeu psicoterapia — principalmente terapia cognitivo-comportamental (TCC) e terapia de aceitação e compromisso (ACT) — melhorou significativamente mais do que os controles no uso problemático, na frequência e duração do uso e na compulsividade sexual, com efeitos grandes e estáveis no seguimento; para o craving, o efeito foi pequeno (López-Pinar et al., 2025). Uma revisão sistemática pré-registrada sobre compulsão sexual e pornografia, com 24 estudos, chegou a conclusão parecida: receber tratamento melhora os sintomas, com evidência de eficácia sobretudo para a TCC (Antons et al., 2022).

Num ensaio clínico randomizado sobre o quadro amplo, 137 homens com transtorno hipersexual foram sorteados para sete semanas de TCC em grupo ou para lista de espera. O grupo tratado teve redução significativamente maior dos sintomas e da compulsividade sexual, com melhora do bem-estar psiquiátrico, e os efeitos se mantiveram três e seis meses depois (Hallberg et al., 2019). Outro ensaio, com 28 homens — quase todos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias —, comparou 12 sessões individuais de ACT com lista de espera: a visualização de pornografia caiu 93% no grupo tratado contra 21% no grupo de espera (Crosby & Twohig, 2016).

Medicação: quando entra

A diretriz da Federação Mundial das Sociedades de Psiquiatria Biológica é clara: psicoeducação e psicoterapia são a primeira escolha e devem sempre ser feitas. Nenhum medicamento tem indicação formal para compulsão sexual; os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina e a naltrexona são hoje os mais relevantes, com a escolha dependendo da intensidade do quadro e das comorbidades (Turner et al., 2022). Uma revisão de 2024 lembra que boa parte dos dados sobre fármacos vem de relatos de caso e que eles são sugeridos como complemento da psicoterapia, que tem mais evidência (Mestre-Bach & Potenza, 2024). Remédio, aqui, é decisão do psiquiatra, e só depois de avaliação.

O limite da evidência

Faço questão de colocar o outro lado. Uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores brasileiros avaliou 28 estudos, com 500 participantes, e classificou a qualidade da evidência de todas as intervenções como baixa ou muito baixa: 16 dos estudos eram relatos de caso e apenas 4 eram ensaios randomizados (Roza et al., 2024). A própria meta-análise de 2025 aponta alto risco de viés nos estudos incluídos (López-Pinar et al., 2025), e o ensaio com 137 homens teve baixa taxa de resposta no seguimento e não incluiu mulheres (Hallberg et al., 2019).

Isso não significa que o tratamento não funcione. Significa que ninguém honesto pode lhe prometer uma taxa de sucesso — e que um tratamento sério precisa medir o próprio resultado, caso a caso.

Como conduzo o tratamento no consultório

Trabalho com a lógica da engenharia comportamental. Primeiro, a avaliação: separar perda de controle de conflito moral, descartar causa médica ou medicamentosa, mapear as comorbidades — depressão e ansiedade aparecem com frequência. Depois, o mapa do ciclo: quais emoções, horários, lugares e pistas antecedem o comportamento, e que função ele cumpre. Só então a intervenção: mudança de ambiente e de acesso, manejo do impulso sem obedecê-lo, construção de alternativas de regulação emocional e, quando há casamento, o trabalho sobre a confiança.

E meço. Uso instrumentos no início e ao longo do processo, porque o que não é medido vira impressão — e impressão, nesse tema, costuma ser otimista demais ou pessimista demais.

Compulsão sexual tem cura?

Em uma frase: não existe uma taxa de cura estabelecida para compulsão sexual, mas os estudos mostram redução consistente dos sintomas com tratamento e mostram que o quadro não é, necessariamente, para a vida toda.

Dois achados sustentam essa resposta. O primeiro vem dos ensaios clínicos: a melhora obtida com TCC e ACT se manteve nos seguimentos medidos — de até seis meses no ensaio com 137 homens (Hallberg et al., 2019; López-Pinar et al., 2025). O segundo vem do acompanhamento populacional em Israel: entre as pessoas com compulsão sexual provável no início do estudo, o grupo que deixou de preencher os critérios (a trajetória que os autores chamaram de “recuperação”, com 138 pessoas) foi maior do que o grupo que permaneceu com o quadro (a trajetória crônica, com 42 pessoas) (Efrati et al., 2026). É uma amostra da comunidade, medida por autorrelato — mas desmonta a ideia de sentença perpétua.

Prefiro falar em controle recuperado do que em cura. O impulso pode continuar aparecendo em momentos de estresse; o que muda é a capacidade de não obedecer a ele e de reconhecer cedo as condições que o disparam. É uma habilidade treinável — e, como toda habilidade, se mantém com prática.

FAQ — Perguntas frequentes sobre compulsão sexual

O que caracteriza uma compulsão sexual?

Um padrão persistente de falha em controlar impulsos sexuais intensos e repetitivos, que resulta em comportamento sexual repetido, dura um período prolongado (a referência da CID-11 é de 6 meses ou mais) e causa sofrimento acentuado ou prejuízo importante na vida (World Health Organization, 2025).

Popularmente, compulsão sexual, hipersexualidade, vício em sexo, satiríase (em homens) ou ninfomania (em mulheres). O nome técnico na CID-11 é transtorno do comportamento sexual compulsivo. Mas atenção: desejo sexual alto, sozinho, não é transtorno — só há diagnóstico quando existe perda de controle e prejuízo (World Health Organization, 2025).

Na CID-11, o código é 6C72 — transtorno do comportamento sexual compulsivo, no grupo dos transtornos do controle de impulsos (World Health Organization, 2025).

A primeira escolha é a psicoterapia, com a melhor evidência para a terapia cognitivo-comportamental e a terapia de aceitação e compromisso (López-Pinar et al., 2025; Turner et al., 2022). Medicamentos podem ser usados como apoio, com indicação de psiquiatra, sem que nenhum tenha indicação formal para o quadro (Turner et al., 2022).

Observe se você consegue parar quando decide parar, se já tentou reduzir várias vezes sem sucesso e se o comportamento continua apesar de prejuízos. Escalas validadas como a CSBD-19 ajudam na triagem (Bőthe et al., 2023), mas não substituem uma avaliação clínica, que também verifica se o sofrimento vem de perda de controle ou de um conflito moral.

Não exatamente. O uso problemático de pornografia é um subtipo da compulsão sexual (Mestre-Bach & Potenza, 2024); a compulsão sexual é mais ampla e pode envolver masturbação, encontros, cibersexo ou serviços sexuais, com ou sem pornografia (World Health Organization, 2025).

Próximo passo

Se você se reconheceu neste texto, o primeiro passo não é força de vontade — é uma avaliação bem feita. Na consulta avaliativa, de 90 minutos, presencial em Brasília ou on-line, eu separo perda de controle de conflito moral, investigo o que sustenta o ciclo e desenho com você um plano de tratamento com metas medidas. Com sigilo profissional, previsto no Código de Ética do psicólogo. Conheça o tratamento em https://inpaonline.com.br/psicologo-vicio-em-pornografia/.

Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo

Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.

Atuo em duas frentes de alta complexidade:

Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.

Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.

Credenciais e Formação:

Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.

Canais Oficiais:

fabiocalo.com.br · Instagram @fabiocalo · YouTube @ofabiocalo · LinkedIn fabioaugustocalo

Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.

Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental

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Referências

Antons, S., Engel, J., Briken, P., Krüger, T. H. C., Brand, M., & Stark, R. (2022). Treatments and interventions for compulsive sexual behavior disorder with a focus on problematic pornography use: A preregistered systematic review. Journal of Behavioral Addictions, 11(3), 643–666. https://doi.org/10.1556/2006.2022.00061

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Fábio Caló, psicólogo clínico e mestre pela UnB, em Brasília
Sou Fábio Caló, psicólogo clínico e Mestre pela UnB com 27 anos de prática baseada em evidências. Especialista em intervenções de alta complexidade para crises conjugais (Método Gottman) e tratamento do consumo problemático de pornografia, através de protocolo clínico próprio. Ajudo pacientes e casais a superarem padrões destrutivos com estratégias científicas e resultados mensuráveis.

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