As fases do luto descrevem as reações emocionais que costumam aparecer depois de uma perda importante — a morte de alguém querido ou o fim de um relacionamento —, mas a pesquisa sobre o tema mostra que elas não seguem uma sequência fixa nem um prazo definido.
Na prática clínica, ouço com frequência a mesma preocupação: “será que estou fazendo o luto do jeito certo?” — como se existisse um roteiro a seguir, fase por fase, até um ponto final. Um dos modelos mais difundidos sobre o tema — o das cinco fases — nasceu em um contexto diferente do que normalmente se imagina, e os estudos que tentaram confirmá-lo entre pessoas enlutadas encontraram um quadro variado, não uma sequência única.
Neste texto, reúno o que a pesquisa descreve: de onde vem o modelo das cinco fases e por que ele não se sustentou como uma ordem fixa, por que o luto raramente segue um caminho linear, o que a pesquisa descreve sobre o luto pelo fim de um relacionamento, quanto tempo esse processo costuma levar e o que tem sustentação empírica quando a dor não afrouxa com o tempo.
Neste artigo, você lerá:
As fases do luto: de onde vem o modelo e o que mudou
O modelo das cinco fases — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação — foi proposto originalmente em 1969 para descrever a experiência de pacientes diante da própria morte iminente, não o processo de quem perde alguém (Kübler-Ross, 1969). A extensão do modelo para o luto de quem fica veio depois, por popularização, e não por um teste direto da hipótese nessa população (Maciejewski et al., 2007).
Maciejewski e colegas (2007) testaram essa hipótese diretamente: acompanharam pessoas enlutadas e mediram a intensidade de descrença, raiva, depressão, saudade e aceitação ao longo do tempo. Encontraram suporte parcial para a sequência prevista — os picos de cada sentimento ocorreram, em média, na ordem aproximada que o modelo prevê —, mas a descrença não apareceu como o sentimento dominante ou inicial, como a teoria das fases sugere. Em outras palavras: há um padrão temporal nos dados, mas ele não equivale a um roteiro fixo que todo enlutado atravessa da mesma forma.
Uma tentativa de replicação chegou a um resultado ainda mais modesto. Holland e Neimeyer (2010) testaram o mesmo modelo em uma amostra de adultos jovens enlutados por mortes naturais e violentas e encontraram apenas suporte limitado à sequência proposta. Nessa pesquisa, a capacidade de encontrar sentido na perda previu melhor o nível de adaptação ao luto do que o tempo transcorrido desde a morte — um indício de que “o estágio em que a pessoa está” diz menos sobre o seu estado do que aquilo que ela já conseguiu elaborar sobre o que perdeu.
Por que o luto raramente é linear
Se não há uma sequência fixa de fases, o que explica a variação entre uma pessoa enlutada e outra? Um achado dessa linha vem de uma reanálise de dados longitudinais de adultos mais velhos nos Estados Unidos que haviam perdido o cônjuge. Analisando padrões de depressão ao longo de quase sete anos — de três antes a quatro depois da perda (Galatzer-Levy & Bonanno, 2012) —, os autores identificaram quatro trajetórias: resiliência, com sintomas depressivos baixos ou ausentes (66,3%); luto crônico, com depressão que surge após a perda e só se atenua cerca de quatro anos depois (9,1%); depressão crônica pré-existente, já alta antes da perda e que continua alta (14,5%); e um padrão de melhora, com depressão alta antes que diminui depois (10,1%). A amostra era de viúvos e viúvas mais velhos nos Estados Unidos, e essas proporções não devem ser lidas como válidas para qualquer idade ou tipo de perda.
Essa heterogeneidade tem uma leitura teórica: o chamado Modelo de Processo Dual descreve o enfrentamento do luto como uma oscilação, não uma progressão — a pessoa alterna entre momentos de confronto direto com a dor da perda e momentos de afastamento dela, voltados para reorganizar a vida prática (Stroebe & Schut, 1999). Esse mesmo grupo de autores discute o conceito de “vínculos contínuos” — manter, de alguma forma, uma relação simbólica com quem morreu (guardar objetos, conversar mentalmente com a pessoa, manter rituais) — e são explícitos ao afirmar que a literatura científica ainda não tem clareza sobre quando esse vínculo ajuda a adaptação e quando ele a dificulta (Stroebe et al., 2010). Não é um recurso que se possa recomendar ou desencorajar em bloco.
O luto no fim de um relacionamento
O luto não se limita à morte. Um estudo com mais de dois mil universitários comparou pessoas que haviam passado por uma separação amorosa com pessoas expostas a um evento traumático segundo o Critério A do DSM-5 — a categoria que define trauma para fins de diagnóstico de estresse pós-traumático. O grupo da separação apresentou escores de sintomas de estresse pós-traumático significativamente mais altos: 72,9% pontuaram acima do ponto de corte de rastreio para TEPT provável, contra 55,4% no grupo de trauma (Van der Watt et al., 2023). É um desenho transversal com universitários sul-africanos, então não permite afirmar que terminar um relacionamento “causa” mais sofrimento do que um trauma — mas deixa claro que tratar o luto amoroso como algo menor não encontra apoio nos dados.
Um dos mecanismos estudados para explicar por que algumas rupturas doem tanto é o padrão de apego com o ex-parceiro. Em um estudo com estudantes, pesquisadores mediram o apego ansioso e o “apego desejado” (a vontade, ainda presente, de manter o vínculo) e mediram, com uma tarefa de aproximação-evitação, o viés automático de aproximação em relação a imagens do ex-parceiro. O apego ansioso associou-se a mais ruminação e mais sofrimento relacionado à separação; o apego desejado, a mais saudade do ex-parceiro, maior aproximação automática e mais sofrimento (Eisma et al., 2022). O desenho é correlacional e a amostra, de estudantes — não é possível concluir que o apego “causa” o sofrimento, apenas que os dois aparecem juntos.
Quanto tempo dura o luto
Não existe um prazo universal. O que a psiquiatria recentemente passou a reconhecer é um ponto de corte para quando o luto se torna um quadro clínico: o transtorno de luto prolongado, incluído na CID-11 e no DSM-5-TR. Segundo uma revisão publicada na Lancet, o quadro tem início típico entre seis e doze meses após a morte de uma pessoa próxima, caracteriza-se por saudade ou preocupação persistente com a pessoa perdida, e está associado a desfechos como prejuízo funcional, maior uso de serviços de saúde e aumento das taxas de suicidalidade (Killikelly et al., 2025).
Quanto à frequência, os números variam bastante segundo a população estudada. Em uma amostra representativa da população geral alemã, a prevalência de luto prolongado entre as pessoas enlutadas ficou entre 4,7% e 6,8%, dependendo do critério diagnóstico e do algoritmo aplicado (Treml et al., 2024). Já uma metanálise com treze estudos durante a pandemia de covid-19 encontrou prevalência agrupada de 24% (IC 95%: 13%-36%) — bem mais alta, mas específica de um período de mortes em massa, isolamento social e rituais de luto interrompidos (Li et al., 2026). Os dois achados descrevem populações e contextos diferentes e não devem ser lidos como um único número de referência.
O que realmente ajuda no luto
Entre as abordagens testadas para o tratamento do luto prolongado, uma revisão sistemática com metanálise em rede comparou onze modalidades de psicoterapia frente a lista de espera, reunindo 55 estudos e mais de dez mil participantes (Hao et al., 2024). Terapia comportamental (diferença média padronizada = -1,05), terapia cognitivo-comportamental de terceira onda (-1,00), terapia familiar (-0,87), terapia psicodinâmica (-0,88) e terapia cognitiva (-0,84) reduziram os sintomas de luto de forma estatisticamente significativa em relação à lista de espera. A terapia cognitivo-comportamental foi a única modalidade com aceitabilidade superior à da lista de espera, e a terapia cognitivo-comportamental de terceira onda também reduziu sintomas de depressão, estresse pós-traumático e ansiedade (Hao et al., 2024).
Sobre o apoio social informal — de amigos, família e comunidade, não de um profissional —, um estudo investigou como as pessoas percebem e decidem oferecer esse apoio a quem está de luto. O achado central não foi que o apoio social “funciona” de forma uniforme, mas que a percepção de quão útil é um gesto de apoio varia entre as próprias pessoas que podem oferecê-lo, conforme idade, gênero e experiência prévia com perdas (Logan et al., 2018). Isso sugere por que um mesmo gesto pode ser avaliado de formas diferentes por pessoas diferentes.
Quando o luto pede ajuda profissional
Como não há prazo fixo nem sequência obrigatória de fases, o critério mais útil não é “quanto tempo faz” ou “em que fase eu deveria estar”, e sim se a dor continua impedindo o funcionamento no dia a dia muito além dos primeiros meses — saudade ou preocupação intensa e persistente, dificuldade de aceitar a perda, sensação de perda de identidade, ou perda de sentido na vida (Killikelly et al., 2025; Treml et al., 2024). Nenhum desses sinais, isoladamente, define um diagnóstico — isso exige avaliação profissional.
Quando o luto se torna um quadro mais persistente, existem abordagens psicoterapêuticas com eficácia testada, não apenas “o tempo que cura” (Hao et al., 2024). Procurar avaliação profissional não é desistir de lidar com a dor por conta própria — é reconhecer que alguns processos se beneficiam de uma estrutura externa para serem elaborados.
Para ir além
Para quem quiser se aprofundar no tema, alguns livros ajudam a complementar — sem substituir — o que a pesquisa descreve:
- Kübler-Ross, E. (1969). On death and dying. Macmillan.
- Kübler-Ross, E., & Kessler, D. (2005). On grief and grieving: Finding the meaning of grief through the five stages of loss. Scribner.
- Bonanno, G. A. (2009). The other side of sadness: What the new science of bereavement tells us about life after loss. Basic Books.
- Worden, J. W. (2018). Grief counseling and grief therapy: A handbook for the mental health practitioner (5th ed.). Springer Publishing.
FAQ: perguntas frequentes sobre fases do luto
O que dizer para uma pessoa que está de luto?
Não existe uma frase correta, e um estudo sobre apoio social após o luto mostra que a utilidade atribuída a um mesmo gesto varia entre as pessoas que podem oferecê-lo (Logan et al., 2018). Em geral, presença e disponibilidade — perguntar como a pessoa está, oferecer companhia sem cobrar uma resposta específica, e aceitar que ela pode preferir silêncio em alguns momentos — é o que costumo propor na clínica, sem que exista um estudo comparando essas estratégias entre si.
Quanto tempo dura o luto?
Não há um prazo único. O que a psiquiatria usa como referência clínica é o diagnóstico de transtorno de luto prolongado, que considera o início de um quadro persistente entre seis e doze meses após a morte, quando a dor continua causando prejuízo significativo ao funcionamento (Killikelly et al., 2025). Fora desse quadro específico, a duração varia muito de pessoa para pessoa.
O luto por fim de relacionamento é igual ao luto por morte?
Não é idêntico, mas os dados indicam que também pode ser intenso. Em um estudo com universitários, o grupo que havia passado por uma separação amorosa apresentou sintomas de estresse pós-traumático significativamente mais altos do que o grupo exposto a um evento classificado como traumático pelo DSM-5 (Van der Watt et al., 2023).
O que é luto complicado ou luto prolongado?
É quando a intensidade do luto não diminui com o tempo esperado e continua prejudicando o funcionamento da pessoa — no trabalho, nas relações ou no cuidado consigo mesma — muito além dos primeiros meses após a perda. O quadro foi incluído como diagnóstico na CID-11 e no DSM-5-TR, e, em uma amostra representativa da população geral alemã, a prevalência estimada ficou entre 4,7% e 6,8% das pessoas enlutadas (Treml et al., 2024; Killikelly et al., 2025).
O luto sempre passa pelas mesmas fases, na mesma ordem?
Os estudos que testaram diretamente essa ideia entre pessoas enlutadas encontraram, no máximo, suporte parcial a uma sequência — e uma tentativa de replicação encontrou apoio limitado (Maciejewski et al., 2007; Holland & Neimeyer, 2010). Na prática, o caminho de cada pessoa tende a ser variável, diferente de uma lista fixa de fases.
Próximo passo
Se você está no meio de um processo de luto — por uma morte ou pelo fim de um relacionamento — e sente que a dor não está cedendo espaço para mais nada na sua rotina, uma avaliação inicial pode ajudar a entender o que está em jogo. No Inpa, essa primeira conversa é uma sessão de avaliação de cerca de 90 minutos, individual ou em casal, presencial ou on-line, para mapear o quadro com calma antes de qualquer decisão sobre continuar ou não em acompanhamento. Não é um compromisso de tratamento — é um espaço para entender, com mais clareza, o que faz sentido no seu caso. Fone: (61) 3242-1153.
Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Atuo em duas frentes de alta complexidade:
Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.
Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.
Canais Oficiais:
fabiocalo.com.br · Instagram @fabiocalo · YouTube @ofabiocalo · LinkedIn fabioaugustocalo
Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.
Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Tratamento do consumo problemático de pornografia | Saúde Mental
Referências
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Galatzer-Levy, I. R., & Bonanno, G. A. (2012). Beyond normality in the study of bereavement: Heterogeneity in depression outcomes following loss in older adults. Social Science & Medicine, 74(12), 1987-1994. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2012.02.022
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Killikelly, C., Smith, K. V., Zhou, N., Prigerson, H. G., O’Connor, M.-F., Kokou-Kpolou, C. K., Boelen, P. A., & Maercker, A. (2025). Prolonged grief disorder. The Lancet, 405(10489), 1621-1632. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)00354-X
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