Por Fábio Caló, psicólogo clínico — CRP 01/7458, registro ativo

O que se chama de primeiro amor não tem, na literatura científica, uma idade de início definida. O que existe é um recorte: a revisão de referência da área estuda relacionamentos românticos dos 10 anos ao início da casa dos vinte (Collins, Welsh & Furman, 2009). O que acontece antes disso — o “namorinho” dos seis, dos oito, dos dez anos — é descrito por observação clínica, não por esse corpo de pesquisa. Essa distinção é o fio deste texto.
Neste artigo: A partir de que idade a pesquisa fala em “relacionamento romântico” · A teoria do apego e sobre quem ela foi testada · O que o vínculo com os pais prevê · Como o afeto muda a cada faixa etária · Quando a criança “namora” o pai ou a mãe · Quando o afeto se volta para um adulto de fora da família · O lado do risco · Namoro precoce e escola · O que eu oriento · Sobre quem as pesquisas foram feitas · Glossário · Perguntas frequentes
Seu filho de sete anos anunciou no jantar que tem namorada. Sua filha de doze passou a semana chorando por um menino da turma. Seu filho de cinco disse que vai casar com você. A pergunta que chega ao meu consultório é sempre a mesma, em variações: isso é sério, ou é só uma fase?
Sou psicólogo clínico há quase três décadas e atendo casais e famílias em Brasília. Vou responder essa pergunta, mas aviso primeiro o que este texto não vai fazer: não vai tranquilizar você por padrão. Quase todo conteúdo sobre “primeiro amor” na internet segue o mesmo roteiro — é normal, é fofo, não se preocupe. Em alguns pontos esse roteiro é simplesmente contrariado pela literatura científica. Em outros, a literatura não diz nada — e quando for esse o caso, eu vou dizer que não diz, em vez de preencher o silêncio com uma explicação de aparência técnica.
Essa é a diferença entre um texto que acalma e um texto que informa. Escolhi o segundo.
Neste artigo, você lerá:
- A partir de que idade a pesquisa fala em "relacionamento romântico"
- O que é a teoria do apego, e sobre quem ela foi testada
- O que o vínculo com os pais prevê — e o que ele não prevê
- Como o afeto muda a cada faixa etária
- Quando a criança diz que "namora" o pai ou a mãe
- Quando o afeto da criança se volta para um adulto de fora da família
- O lado que quase ninguém conta aos pais: o risco
- Namoro precoce e desempenho escolar
- O que eu oriento no consultório
- Sobre quem essas pesquisas foram feitas
- Glossário
- Perguntas frequentes
A partir de que idade a pesquisa fala em “relacionamento romântico”
Existe uma revisão de referência sobre o tema, publicada na Annual Review of Psychology por W. Andrew Collins, Deborah Welsh e Wyndol Furman. Ela é o ponto de partida de boa parte da pesquisa da área, e a primeira coisa que ela estabelece é o recorte: o objeto de estudo são os relacionamentos românticos entre os 10 anos e o início da casa dos vinte (Collins, Welsh & Furman, 2009).
Esse detalhe tem consequência prática para quem é pai ou mãe. A janela de estudo dessa revisão COMEÇA aos 10 anos. Quando uma criança de seis anos diz que tem namorado, ela não está dentro do fenômeno que essa literatura descreve. Não é que a ciência tenha concluído que aos seis anos “não é nada” — é que esse não é o objeto que ela mediu. São coisas diferentes, e confundi-las é o erro mais comum nos textos sobre o assunto.
Ou seja: não existe, na literatura que consultei, uma idade fixa em que “o primeiro amor começa”. Existe uma faixa a partir da qual pesquisadores passaram a medir relacionamentos românticos de forma sistemática. O que acontece antes disso é descrito por observação clínica — inclusive a minha, mais adiante —, e eu sinalizo com clareza quando estiver falando a partir do consultório em vez de a partir de estudo.
O que é a teoria do apego, e sobre quem ela foi testada
A teoria do apego é a estrutura conceitual mais usada para pensar vínculos afetivos. Ela não nasceu em 1987, como às vezes se lê por aí: nasceu com John Bowlby e Mary Ainsworth em meados do século XX, e uma revisão sistemática publicada em 2026 na Frontiers in Psychology ainda descreve o “porto seguro” de Bowlby e a Situação Estranha de Ainsworth como a base do campo (Ho & Rahaman, 2026). São cerca de setenta anos de pesquisa, não quarenta.
Em 1987, Cindy Hazan e Phillip Shaver propuseram algo então novo: que o amor romântico adulto é, ele mesmo, um processo de apego — o mesmo sistema que liga um bebê ao cuidador continuaria ativo na vida adulta, dirigido agora a um parceiro (Hazan & Shaver, 1987). É um artigo de enorme influência histórica, e é por isso que eu o cito.
E é por isso, também, que eu preciso dizer exatamente o que ele é: dois estudos por questionário, feitos com ADULTOS. Não é um estudo sobre crianças, e não acompanhou ninguém ao longo do tempo. Ele não sustenta nenhuma afirmação sobre o que se passa na cabeça do seu filho de oito anos — qualquer texto que o use para isso está usando a fonte errada.
O que a evidência recente acrescenta vai na direção oposta do fatalismo. A revisão de 2026, que reuniu 40 estudos publicados entre 2014 e 2024 seguindo o protocolo PRISMA, conclui que o apego é mais bem compreendido como um sistema probabilístico e dependente da experiência do que como atributo fixo. Ela descreve estabilidade E transformação: muitas crianças mantêm a mesma classificação da primeira infância à pré-escola, mas mudanças são frequentes e estão associadas à qualidade do cuidado, a fatores de estresse e a intervenções. O tamanho de efeito reportado para a estabilidade do apego seguro nos primeiros anos é moderado, na ordem de 0,45 (Ho & Rahaman, 2026).
Traduzindo para a sua casa: apego não é destino. É uma tendência de tamanho moderado, que muda com o cuidado que a criança recebe e que responde a intervenção. Essa é uma notícia boa, e é uma notícia com fonte.
O que o vínculo com os pais prevê — e o que ele não prevê
Uma revisão sistemática publicada na Family Process reuniu 40 artigos sobre a relação entre a qualidade do vínculo pai/mãe-filho na família de origem e o funcionamento de relacionamentos românticos posteriores. O achado central: tanto a segurança do apego quanto a qualidade da interação com os pais aparecem associadas ao ajuste do relacionamento romântico e à qualidade observada da interação entre os parceiros. A revisão encontrou também diferenças por gênero em muitos estudos e efeitos em cascata ao longo do desenvolvimento (River, O’Reilly Treter, Rhoades & Narayan, 2021).
Agora, os limites dessa afirmação, que importam tanto quanto ela:
A maior parte dos 40 estudos amostrou casais de adultos jovens entre 18 e 26 anos. O que essa revisão cobre é a entrada na vida adulta, não “décadas depois”. Se você ler que a forma como seu filho é amado hoje vai determinar como ele ama aos cinquenta, essa frase não veio daqui — e eu não conheço a fonte que a sustentaria.
E são estudos correlacionais. Associação não é causalidade: o vínculo com os pais PODE influenciar o funcionamento dos relacionamentos do filho adulto jovem, não o determina. Junte ao achado da revisão de 2026 — apego probabilístico e revisável, estabilidade moderada — e o quadro honesto é este: o que você faz em casa conta, e não é irreversível nem para o bem nem para o mal.
Essa distinção é clinicamente decisiva. Pai que acredita em determinismo ou desiste (“já estraguei”) ou entra em pânico de perfeição (“não posso errar nenhuma vez”). Os dois são leituras erradas da evidência.
Como o afeto muda a cada faixa etária
As faixas etárias abaixo vêm de fontes diferentes, e eu nomeio qual é qual em cada bloco. Onde não houver fonte, eu digo que é minha observação clínica. Misturar as duas coisas é o defeito mais comum dos textos sobre este tema.
Antes dos 6 anos: opinião clínica, sem lastro de evidência
Nessa idade, no que eu observo em consultório, “gostar” tem caráter de fantasia e de brincadeira, e o que a criança chama de namoro costuma ser a amizade mais próxima. Registro como impressão clínica de quase trinta anos de prática: não localizei, nas fontes deste artigo, estudo que descreva essa faixa. É a opinião de um psicólogo experiente, não dado científico.
Dos 6 aos 11 anos, a chamada segunda infância: o mundo vira os pares
Essa faixa etária — aproximadamente 6 a 11 anos — é como a revisão sistemática de 2026 delimita a middle childhood, e o que ela descreve como central nessa fase não é o romance: é o peso crescente dos pares. Aceitação pelos colegas e amizades estáveis nessa idade predizem melhor competência social, melhor regulação emocional, mais engajamento acadêmico e menos chance de problemas internalizantes, como ansiedade e depressão.
O reverso está na mesma revisão e é mais duro: problemas com pares, como bullying e exclusão social, estão fortemente associados a problemas de saúde mental posteriores — incluindo depressão, ideação suicida e queda no desempenho escolar —, com estudos longitudinais enfatizando o efeito da vitimização recorrente (Ho & Rahaman, 2026).
Por que isso importa aqui: o “namorinho” dos 8 anos acontece dentro da vida social da turma, e é a vida social da turma que carrega o peso preditivo. Quando um pai me procura porque o filho “está apaixonado”, a pergunta clinicamente relevante muitas vezes não é sobre a paixão — é sobre como esse filho está posicionado no grupo.
Dos 12 aos 18 anos: entram amigos e parceiros românticos, com sinal duplo
A mesma revisão descreve a transição para a adolescência, aproximadamente dos 12 aos 18 anos, como o momento em que amigos E parceiros românticos passam a ter papel central na formação de identidade, no desenvolvimento da intimidade e na internalização de normas sociais. Relações de boa qualidade e experiências românticas iniciais favoráveis promovem tomada de perspectiva, estabilidade emocional e consolidação de identidade.
E, na mesma frase, o outro lado: rejeição pelos pares e normas de grupo mal-adaptativas aumentam a suscetibilidade a problemas de conduta e a sintomas depressivos. A revisão também observa que conflitos hostis persistentes entre pais e adolescentes, e problemas de saúde mental dos pais, podem minar a segurança do apego e agravar desfechos negativos (Ho & Rahaman, 2026).
Note o padrão: a evidência é de mão dupla em toda faixa. Não existe, nessa literatura, “namorar faz bem” nem “namorar faz mal”. Existe “depende da qualidade” — e isso não é uma evasiva, é o achado.
Sobre o desejo sexual e a idade em que ele entra
Circula muito a ideia de que o desejo sexual só entra na equação “a partir dos 15 anos”. Não encontrei fonte para esse número, e a literatura aponta em outra direção: a revisão da Annual Review of Psychology discute comportamento sexual já na adolescência inicial. Não tenho uma idade para colocar no lugar, e prefiro deixar a lacuna visível a preenchê-la com um número inventado.
Quando a criança diz que “namora” o pai ou a mãe
É frequente, principalmente em crianças menores, a frase “eu sou a namorada do papai” ou “vou casar com a mamãe”. Essa é, na minha prática clínica, uma das falas que mais gera constrangimento nos pais e mais raramente merece o alarme que gera.
Declaro o estatuto disso antes de seguir: o que vem a seguir é orientação clínica minha. Não encontrei, nas fontes usadas neste artigo, estudo que descreva especificamente esse comportamento ou que meça o que ele prediz. E eu não vou citar teoria do apego para dar aparência de evidência a uma observação de consultório.
O que eu oriento: o ponto de atenção raramente é a frase da criança, e sim a reação do adulto. Ridicularizar ensina a criança que falar de afeto com você sai caro. Entrar na brincadeira como se houvesse de fato um par romântico embaralha o lugar de cada um. O caminho que eu recomendo é reafirmar com afeto o vínculo real — “eu te amo, e eu sou seu pai” — preservando o limite entre gerações sem humilhar a criança.
Se a frase vem acompanhada de outras coisas que preocupam você — comportamento sexualizado que destoa da idade, regressão, mudança brusca de humor, medo de alguém específico —, não é caso de ler artigo. É caso de avaliação profissional, e trato disso a seguir.
Quando o afeto da criança se volta para um adulto de fora da família
Esta é a busca de maior volume que esta página recebe: pais procurando o que significa uma criança “se apaixonar” por um adulto — um professor, um tio, um treinador, um cuidador.
A resposta padrão na internet é que isso “reflete apenas o apego generalizado a figuras de autoridade seguras” e não indica risco. Eu não vou dar essa resposta: não localizei esse mecanismo em nenhuma das revisões que embasam este texto. É explicação de som técnico e origem nenhuma — e ela tranquiliza sobre uma pergunta que pais às vezes fazem justamente porque alguma coisa os incomodou e eles não conseguem nomear o quê.
Também não vou substituir a tranquilização por alarme, que seria o erro simétrico. Vou dizer o que é verdade:
Não tenho evidência para afirmar a você que esse afeto é inofensivo, e não tenho evidência para afirmar que é sinal de algo errado. Um artigo de blog não tem como fazer essa distinção. Quem faz é um profissional, olhando para a criança concreta, o adulto concreto e o contexto concreto — e é por isso que existe avaliação individualizada.
O que eu oriento, e declaro como orientação clínica minha:
- Se você está lendo esta página porque alguma coisa na relação entre o seu filho e um adulto te deixou desconfortável, essa sensação merece avaliação profissional, não busca no Google. Procure um psicólogo da infância ou o pediatra e descreva o que observou — inclusive o que você não consegue explicar por que incomoda.
- Havendo qualquer indício de violência ou exploração sexual contra a criança, isso sai do campo do desenvolvimento e entra no campo da proteção. No Brasil, a denúncia pode ser feita pelo Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e pelo Conselho Tutelar do município, sem necessidade de prova prévia por parte de quem comunica.
- E manter o canal aberto com a criança: perguntar como foram as coisas, ouvir sem interrogar, não punir o relato.
O lado que quase ninguém conta aos pais: o risco
Chego ao motivo pelo qual avisei, lá no começo, que este texto não ia tranquilizar por padrão. A revisão de Collins, Welsh e Furman é explicitamente bivalente. Ela não diz que relacionamento na adolescência é bom para o desenvolvimento. Ela diz que está associado tanto a competência social quanto a risco — as duas coisas, como achado central. Quase todo texto de divulgação reporta só a metade boa.
O que a revisão reporta do lado do risco, e que os pais raramente leem:
- Adolescentes que iniciaram um relacionamento romântico no último ano apresentaram MAIS sintomas depressivos — achado que a revisão reporta a partir de Joyner e Udry (2000).
- O gatilho mais comum do primeiro episódio de transtorno depressivo maior é um término de relacionamento — achado que a revisão reporta a partir de Monroe et al. (1999), e que ela enuncia sem recorte de faixa etária.
- Entre 10% e 48% dos adolescentes relatam agressão física no namoro, e de um quarto a metade relatam agressão psicológica.
Leia de novo aquele último parágrafo. É por isso que “namoro de adolescente é coisa boba”, frase que eu ouço no consultório, não se sustenta: violência no namoro adolescente não é exceção estatística.
E sobre autoestima, que é o benefício mais citado: a revisão diz que o relacionamento romântico está CORRELACIONADO com autoestima, e condiciona esse efeito à natureza e à qualidade do relacionamento. Não é “namorar aumenta a autoestima do adolescente”. É “há correlação, e ela depende de que relacionamento estamos falando” — a diferença entre os dois verbos não é preciosismo, é a diferença entre afirmar causa e afirmar associação.
Esse é o quadro completo, e é ele que deve orientar um pai — não a metade dele.
Namoro precoce e desempenho escolar
Esta é uma das perguntas que mais aparece nas buscas, e a resposta honesta é menos confortável que um “sim” ou um “não”: a literatura registra a associação e deixa a direção causal em aberto.
A revisão de Collins, Welsh e Furman reporta que relacionamentos “off-time” — iniciados no fim da infância ou no início da adolescência, ou seja, fora do tempo típico — ESTÃO associados a pior desempenho acadêmico e a problemas de conduta (misconduct). E a própria revisão apresenta esse achado como exemplo de correlação transversal cuja direção não está estabelecida: ela pode refletir o efeito da experiência romântica sobre o ajuste, ou o inverso.
Ou seja: o namoro fora de hora pode estar prejudicando a escola, ou o mesmo conjunto de fatores pode estar produzindo os dois. O que um pai leva daqui não é uma relação de causa — é que a associação existe e merece atenção, em vez de ser descartada como coincidência.
O que eu oriento no consultório
Você vai ler, em muito lugar, que “a orientação baseada em evidência é acompanhar e orientar, não proibir”, com a revisão de Collins, Welsh e Furman citada ao lado. Essa revisão não contém uma única recomendação a pais sobre permitir ou proibir namoro — não é o tipo de artigo que faz isso. Quem lhe apresenta essa diretriz como achado científico está inventando evidência.
Eu defendo essa orientação. Mas ela é o que é: minha posição clínica, construída em quase trinta anos de consultório, sem lastro de evidência publicada que eu possa citar.
Opinião clínica de Dr. Fábio Caló, declarada como tal:
- Não proibir terminantemente o namoro na adolescência. Proibição produz sigilo — o relacionamento continua, e você perde a informação sobre ele. Isso é o pior dos dois mundos à luz dos números de agressão no namoro que citei acima: o adolescente que não conta nada ao pai é o que não vai contar quando algo der errado.
- Perguntar o que a criança quer dizer com “gostar” ou “namorar” antes de reagir. Aos seis e aos dezesseis anos a mesma palavra nomeia coisas diferentes.
- Ser, desde cedo, o adulto com quem dá para falar — em vez do adulto que descobre as coisas bisbilhotando.
- Evitar frases como “nem quero saber quando você estiver namorando” ou “vou botar esse menino para correr”. Elas ensinam a criança que um assunto importante para ela é aversivo para você.
- Preparar-se emocionalmente para a sexualidade do filho crescendo. É comum sentir perda diante disso, e esse trabalho é do adulto, não da criança.
Nenhuma dessas cinco recomendações tem, neste texto, respaldo de estudo citado. São a minha leitura clínica, e você pode discordar delas sem discordar de nenhuma evidência.
E uma advertência sobre uma afirmação que circula nesse mesmo contexto: a de que “excesso de estímulo romântico ou erótico precoce antecipa a puberdade”. É uma afirmação biológica sobre o corpo de menores de idade, e eu não encontrei nenhuma fonte para ela. Não a repito aqui, e recomendo desconfiar de quem a repete sem citar o estudo.
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Sobre quem essas pesquisas foram feitas
Um cuidado que raramente aparece em texto de divulgação, e que muda como você deve ler tudo acima.
A revisão de Collins, Welsh e Furman aponta as comparações cross-étnicas e entre países como lacuna a preencher. A revisão de River e colegas é da Universidade de Denver e cobre predominantemente amostras de adultos jovens de 18 a 26 anos.
A revisão de 2026 é a mais explícita: seus 40 estudos vêm da Europa, da América do Norte e da Ásia — sem estudos da América Latina na relação que os autores apresentam. E ela alerta que padrões de cuidado moldam a distribuição das classificações de apego: contextos coletivistas, com muita proximidade física e cama compartilhada, podem produzir padrões que os critérios ocidentais classificam como “ansiosos” mas que são adaptativos e normativos naquele contexto (Ho & Rahaman, 2026).
O que isso significa para um pai brasileiro: nada disso é universal, e o Brasil não está nessas amostras. As associações acima são boas apostas, não leis — desconfie de qualquer texto, inclusive deste, que apresente pesquisa estrangeira como descrição garantida da sua família.
Glossário
Os termos técnicos usados neste artigo, na acepção que o próprio texto e as fontes citadas empregam.
- Teoria do apego
- A estrutura conceitual mais usada para pensar vínculos afetivos, nascida com John Bowlby e Mary Ainsworth em meados do século XX — cerca de setenta anos de pesquisa, não quarenta.
- Situação Estranha
- Procedimento de observação criado por Mary Ainsworth que, junto com o “porto seguro” de Bowlby, uma revisão sistemática de 2026 ainda descreve como a base do campo do apego (Ho & Rahaman, 2026).
- Apego seguro
- Uma das classificações do vínculo entre criança e cuidador. A estabilidade dela nos primeiros anos tem tamanho de efeito moderado, na ordem de 0,45, e muda com a qualidade do cuidado: apego não é destino (Ho & Rahaman, 2026).
- Relacionamento romântico (o recorte da pesquisa)
- Na revisão de referência da área, o objeto de estudo são os relacionamentos românticos entre os 10 anos e o início da casa dos vinte (Collins, Welsh & Furman, 2009). O que acontece antes disso é descrito por observação clínica, não por esse corpo de pesquisa. Os 7 tipos de amor →
- Correlação (associação) e causalidade
- Correlação diz que duas coisas andam juntas; causalidade diz que uma produz a outra. Os estudos citados aqui são correlacionais: o vínculo com os pais pode influenciar os relacionamentos do filho adulto jovem — não os determina.
- Correlação transversal
- Associação medida em um único momento no tempo, sem acompanhar as pessoas depois. É o desenho do achado sobre namoro precoce e desempenho escolar — e por isso a direção da relação não está estabelecida.
- Segunda infância (middle childhood)
- A faixa aproximada dos 6 aos 11 anos, como a revisão sistemática de 2026 a delimita. O que ela descreve como central nessa fase não é o romance: é o peso crescente dos pares. Terapia infantil no Inpa →
- Revisão sistemática
- Levantamento que reúne, por método declarado, os estudos existentes sobre uma pergunta. Vale olhar de onde vêm os estudos incluídos: os 40 da revisão de 2026 são da Europa, da América do Norte e da Ásia — sem estudos da América Latina.
Perguntas frequentes
Existe uma idade certa para o “primeiro amor” começar?
Não encontrei na literatura consultada uma idade definida. O que existe é o recorte da principal revisão da área, que estuda relacionamentos românticos a partir dos 10 anos de idade até o início da casa dos vinte (Collins, Welsh & Furman, 2009). O que acontece antes disso é descrito por observação clínica, não por esse corpo de pesquisa.
Namoro precoce atrapalha o desempenho escolar?
A literatura registra a associação e deixa a direção causal em aberto. Relacionamentos iniciados fora do tempo típico — no fim da infância ou no início da adolescência — estão associados a pior desempenho acadêmico e a problemas de conduta (Collins, Welsh & Furman, 2009). A própria revisão usa esse achado como exemplo de correlação cuja direção não está estabelecida. Para um pai, vale que a associação existe e merece atenção — não que a causa esteja provada.
Relacionamento na adolescência faz bem para o desenvolvimento?
A evidência é de mão dupla, e essa é a resposta completa. Relacionamentos românticos na adolescência estão associados tanto a competência social quanto a risco (Collins, Welsh & Furman, 2009). Do lado do risco, a mesma revisão reporta que adolescentes que iniciaram um relacionamento no último ano apresentaram mais sintomas depressivos, que o gatilho mais comum do primeiro episódio de transtorno depressivo maior é um término (Monroe et al., 1999, reportado na revisão), e que entre 10% e 48% relatam agressão física no namoro, com um quarto a metade relatando agressão psicológica. Sobre autoestima, a revisão fala em correlação, condicionada à natureza e à qualidade do relacionamento.
É normal uma criança dizer que é “namorada” do pai ou da mãe?
É uma fala frequente na minha prática clínica, e eu não a trato como sinal de alarme em si. Preciso ser honesto sobre o estatuto dessa resposta: ela é observação clínica minha, não achado de estudo citado neste artigo. O que eu oriento é reafirmar com afeto o vínculo de pai e filho, sem ridicularizar a criança e sem entrar na brincadeira como se houvesse um par romântico.
Minha filha se apaixonou por um adulto (professor, tio, treinador). É normal?
Não tenho evidência para dizer a você que é inofensivo, e não tenho evidência para dizer que é sinal de algo errado. Um artigo não consegue fazer essa distinção — quem consegue é um profissional avaliando a criança, o adulto e o contexto específicos. Se alguma coisa nessa relação te deixou desconfortável, procure avaliação com um psicólogo da infância ou com o pediatra. Havendo qualquer indício de violência ou exploração sexual, o caminho é o Disque 100 e o Conselho Tutelar do município.
Devo proibir meu filho adolescente de namorar?
Minha posição clínica é que não — e faço questão de marcar que é posição clínica minha, sem lastro em estudo citado aqui. A revisão de referência sobre relacionamentos românticos na adolescência não contém recomendação a pais sobre permitir ou proibir namoro; quem afirma que “a evidência manda não proibir” está atribuindo à ciência algo que ela não disse. O que eu argumento, a partir do consultório: proibir tende a produzir sigilo, e sigilo custa caro justamente porque a agressão no namoro adolescente não é rara na literatura. Acompanhar e conversar mantém você informado; proibir, na minha experiência, não.
A forma como meu filho é amado em casa vai determinar os relacionamentos dele no futuro?
Não. “Influenciar” é o verbo correto, e ainda assim com limites. A revisão que examina essa ligação encontrou associação entre a qualidade do vínculo com os pais e o funcionamento de relacionamentos românticos posteriores — mas a maior parte dos 40 estudos amostrou casais de 18 a 26 anos, ou seja, adulto jovem e não “décadas depois”, e são estudos correlacionais (River et al., 2021). Some a isso a revisão de 2026, que descreve o apego como sistema probabilístico e dependente da experiência, com estabilidade moderada e mudanças associadas à qualidade do cuidado e a intervenções (Ho & Rahaman, 2026). Em resumo: conta, e é revisável.
Leia também
Os 7 Tipos de Amor: Como Identificar Qual Deles Define Seu Relacionamento Hoje? — a tipologia do amor na vida adulta.
Próximo passo
Se a sua preocupação deixou de ser o “primeiro amor” do seu filho e passou a ser o seu próprio padrão nos relacionamentos adultos, a consulta avaliativa de 90 minutos é o ponto de partida para examinar isso com rigor clínico e sigilo total.
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Sobre o Autor: Fábio Caló, psicólogo
Psicólogo clínico desde 1999, CRP 01/7458, com registro ativo — a verificação pode ser feita diretamente no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), na área de Análise do Comportamento, e graduado pelo UniCEUB. Fundador do Inpa — Instituto de Psicologia Aplicada, em Brasília.
Atuo em duas frentes de alta complexidade:
Terapia de Casal, com base na pesquisa de John Gottman sobre estabilidade conjugal.
Terapia Sexual, que abrange o tratamento das disfunções sexuais femininas e masculinas — transtorno do orgasmo feminino, dor na relação (dispareunia e vaginismo), ejaculação precoce e retardada, disfunção erétil e desejo sexual hipoativo — e também do consumo problemático de pornografia, para o qual desenvolvi um protocolo específico de intervenção.
Credenciais e Formação:
Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) · Graduação pelo UniCEUB · CRP 01/7458, registro ativo desde 10 de abril de 1999 · Especialização clínica em Terapia de Casal, Terapia Sexual e intervenção no consumo problemático de pornografia.
Canais Oficiais:
fabiocalo.com.br · Instagram @fabiocalo · YouTube @ofabiocalo · LinkedIn fabioaugustocalo
Aviso de propriedade intelectual: este material, incluindo o protocolo de intervenção mencionado, artigos e conteúdos clínicos, constitui propriedade intelectual de Fábio Caló. O uso de metodologias proprietárias ou a reprodução de conteúdos sem a devida autorização ou citação está sujeito às sanções legais aplicáveis. © Copyright 2026. Todos os direitos reservados.
Áreas de atuação: Psicologia Clínica | Terapia de Casal | Terapia Sexual | Terapia Familiar | Saúde Mental
Referências
- Collins, W. A., Welsh, D. P., & Furman, W. (2009). Adolescent romantic relationships. Annual Review of Psychology, 60, 631–652. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.60.110707.163459
- Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511–524. https://doi.org/10.1037/0022-3514.52.3.511
- Ho, J., & Rahaman, M. A. (2026). The influence of attachment and relational quality on developmental outcomes across the lifespan: a systematic review and meta-analytic insights (2014–2024). Frontiers in Psychology, 17, 1745013. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2026.1745013
- River, L. M., O’Reilly Treter, M., Rhoades, G. K., & Narayan, A. J. (2021). Parent-child relationship quality in the family of origin and later romantic relationship functioning: A systematic review. Family Process, 61(1), 259–277. https://doi.org/10.1111/famp.12650