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Participação do Psicólogo Fábio Caló em Artigo Sobre o Tema Mentira

10/12/2013

EMBARALHANDO A CABEÇA

mentira

Não sabemos de fato como aconteceram, onde surgiram e nem quem os protagonizou, mas causos e lendas continuam sendo relatados ao longo dos anos, assim como mentirinhas contadas repetidas vezes viram histórias tidas como verdadeiras

“Quem foi que inventou o Brasil?/Foi seu Cabral! Foi seu Cabral!/No dia 21 de abril/dois meses depois do Carnaval.” Lamartine Babo lançou sua marchinha em 1934, mas mudou o verbo: para ele, o navegador português ‘inventou’ o Brasil, em vez de ‘descobriu’, como gerações de crianças foram levadas a acreditar: eram três naus trombando no Monte Pascoal, na Bahia, em 1500. Nenhuma menção a Duarte Pacheco Pereira que, em 1498, esteve no litoral brasileiro a mando de Dom Manuel I, rei de Portugal.

Cabral descobriu o Brasil e a revista Veja atestou uma façanha da ciência, em 1983, com a engenharia genética fundindo animal e vegetal para a produção do boimate, extraordinário fruto de tomateiro, que já seria colhido em forma de filé com molho de tomate. A matéria publicada em fins de abril daquele ano seria desmentida pelo Estadão apenas em junho e caracterizada como “lamentável equívoco” pela própria revista no mês seguinte, julho. Então, por mais de dois meses, o boimate foi verdade no imaginário dos caros leitores, até se remendar a maior barriga do jornalismo do país, criada por conta de brincadeira de 1º de abril da revista New Science, que até deu pistas: um dos criadores do boimate era o doutor McDonald, da Universidade de Hamburgo.

Pior foi Orson Welles, que teria arrastado multidões apavoradas com outra brincadeirinha, na véspera do Halloween. De nada adiantou intercalar a leitura de A guerra dos mundos, de H.G. Wells, na rádio CBS, sobre marcianos invadindo a Terra, com advertências de que tudo não passava de ficção. Com atores representando repórteres e policiais, mais efeitos sonoros, a confusão estava plantada – só não se sabe se foi verdade o tamanho do pânico descrito pelos jornais do dia seguinte, 31 de outubro de 1938. Mas, verdade ou mentira, ficou na cabeça das pessoas o pavor de cenas do filme homônimo, lançado em 1953, com pessoas se atropelando para fugir dos monstros do espaço.

SERÁ?

Se mentiras contadas repetidas vezes podem “virar” verdades, deve-se levar em consideração não apenas quem as conta, como também o público que as escuta, na visão de José Colaço, cientista social e antropólogo, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia. “Às vezes, temos uma situação, personagens que dão legitimidade, dão sentido, a uma história que a sociedade deseja”, observa. “A mentira é recheada de significados complicados. É turva, nos coloca em desigualdade, é injusta. A verdade é associada a coisas boas. Temos esse contraste, mas, às vezes, se perdem os contornos.”

O especialista também comenta que construímos mitos porque é “prático”. “Funcionam para o dia a dia: político é ladrão, pescador é mentiroso, mulher bonita é burra. São formas de a sociedade esquematizar, dar sentido a situações. E o mito é maior que o homem – extravasa a consciência do personagem.”

Paul McCartney, por exemplo, é dado como morto por muita gente, mesmo com ele mesmo garantindo estar vivo! Indícios repetidos pelas décadas dão conta da “verdade” de que Paul morreu aos 28 anos: na capa do disco Abbey Road, ele é o único beatle descalço e de olhos fechados (como são enterrados os mortos em muitos países); na capa de outro, o Sgt. Pepper’s, com vários personagens já falecidos, sobre a cabeça de Paul está a mão aberta de Stephen Crane (que escreveu The Open Boat, história de quatro homens que lutam em um bote para sobreviver e um deles morre).

FALSA MEMÓRIA

Se há os crédulos, há aquela tia que passa a vida repetindo mentiras – mas essas nunca “se tornam” verdade: todo mundo sabe que aquele filho não ganha uma pequena fortuna, não é bem casado… O psicólogo Fábio Caló, que tem mestrado em análise de comportamento, lembra que há vários tipos de mentirosos. “Muitas vezes, na infância não houve o treino de correspondência entre o fazer e o dizer, que não são necessariamente a mesma coisa. Podemos, por exemplo, deixar a criança brincando e filmar. Quando pedimos um relato do que ela esteve fazendo, se ela mente, mostramos no filme o que na verdade ela fez. É comum a criança dizer: ‘Ah, eu tinha esquecido!’. Quando conta a verdade, reforçamos que foi muito bom.”

Assim, quando não há essa correspondência de fazer e dizer, lá de trás, o sujeito pode mentir pela imagem, por reforço social. “Com mentiras se mantêm ganhos, até financeiros. Como aquele cara que se passou por filho do dono da Gol. É inteligentíssimo. Mesmo sem educação para tirar brevê, se tornou piloto do narcotráfico. Depois, resolveu enganar pessoas, conseguindo prestígio. Até helicóptero para umas modelos ele conseguiu.”

Há mentiras que não representam ganho, mas a eliminação de perdas. “É aquele que dorme demais, inventa que o ônibus bateu e por isso chegou atrasado, ou que mata a avó… Coitadas das avós! Se todas tivessem morrido mesmo, não ia ter cemitério que comportasse”, brinca Caló.

Além disso, tem a imaginação… E o período de tempo. “Às vezes, o indivíduo tem certeza de uma situação que não aconteceu. O processo de contar e recontar uma coisa, com estímulos, é torto. A pessoa se afasta da realidade, constrói uma crença naquilo que está contando e que não é mais verdade. E, sob pressão, ansiedade, também há implantação de falsas memórias.”

DOSTOIÉVSKI NO B.O.

Essas falsas memórias são um problema na investigação de crimes, como explica Marcos Carneiro Lima, delegado de polícia. “Tivemos um caso de briga em boteco com vítima, irmão da vítima e assassino bêbados. Apresentamos cinco fotos ao irmão, que apontou uma, com ‘certeza absoluta’. Mas dissemos que esse sujeito estava morto havia dois anos… Então, ele começou a chorar muito. Na verdade, queria achar um assassino – ele se achava culpado por não ter conseguido defender o irmão. É assim, da natureza humana. Dostoiévski faria um livro dessa história; para nós, vale um B.O.”

Como o psicólogo Fábio Caló, o delegado também fala da importância do tempo, principalmente nos casos de homicídio, quando as primeiras 48 horas são fundamentais. E cita um preceito da polícia, “de precisão cirúrgica”, como destaca: “O tempo que passa é a verdade que se vai, que se perde”.

Sobre verdades e mentiras, o delegado lembra que há um paradoxo na realidade brasileira: “É difícil uma testemunha auxiliar a polícia. Pelo medo, pelo risco de morrer, prefere o silêncio. Mas, em casos de grande repercussão, sempre aparecem testemunhas que querem espaço na mídia. E que até acreditam na própria mentira. No caso Celso Daniel, havia uma senhora que dizia ter ouvido a conversa dos envolvidos bem embaixo da janela dela – o que era impossível”.

TUDO MISTURADO

Laís Bodanzky, diretora de cinema, chama a atenção para “uma coisa curiosa”: muitas vezes, ficção e documentário se embaralham. “O cinema confunde o tempo todo. Para o espectador, um documentário é verdade absoluta; ele se esquece de que é um ponto de vista, um discurso manipulado.”

Para muitos, seu premiado Bicho de sete cabeças, baseado em um livro de Austregésilo Carrano Bueno, faz uma crítica ao sistema de manicômios, é um documentário. “Fizemos com câmera solta no ombro, como se fosse um documentário mesmo, para que a ficção desse a sensação de que era verdade. Trabalhamos com uma linguagem para cavar essa situação. Sim, é aprendizado, é técnica de ‘como enganar’”, diz Laís. “Só fico com raiva quando sou eu a enganada!”, brinca. “No Jogo de cena, filme do Eduardo Coutinho, você fica o tempo todo tentando decifrar o que é verdade, o que é mentira. São várias mulheres filmadas contando histórias, que se acredita serem reais. Mas surgem atrizes famosas, como a Fernanda Torres, também contando histórias. Daí você não sabe se as outras também são atrizes. Como assim?! Quem é atriz, quem não é? São atrizes desconhecidas? Nem todas? Já nem se sabe mais de quem são as histórias!”

Artigo produzido por Denise Mirás

Imagem de João Montanaro
Originalmente publicado em Revista da Cultura

Inpa – Instituto de Psicologia Aplicada, Asa Sul, Brasília – DF, Brasil.

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