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Transtorno Obsessivo-Compulsivo – TOC

toc

 Andréa Dutra
Publicado em: 02/08/2004
 
Transtorno Obsessivo-Compulsivo – TOC – é o quarto transtorno mental mais freqüente no mundo. Atinge de 2 a 3% da população mundial, isto significa 50 milhões de portadores. No Brasil, aproximadamente sete milhões de pessoas já desenvolveram o transtorno. O TOC afeta todas as idades e ambos os sexos. Tem início, geralmente, no final da adolescência e início da vida adulta, podendo ser correlacionado com momentos significativos da vida, chamados “esquinas da vida”, situações extremante ansiógenas.

As pessoas que apresentam o TOC, também chamado de “a doença da dúvida”, são acometidas por pensamentos intrusivos ou idéias recorrentes, como “será que estou com mau cheiro?” ou “será que tranquei a porta da casa?”. E para reduzir a ansiedade e angústia geradas pelos pensamentos obsessivos, a pessoa desenvolve comportamentos repetitivos e ritualísticos (ficar horas no banho ou voltar várias vezes para ver se porta está trancada). Geralmente as obsessões envolvem medo, como, por exemplo, de contaminar-se com vírus, que pode levar a pessoa a lavar as mãos incessantemente.

A pessoa fica presa a um círculo vicioso: o que ela faz na tentativa de ter alívio imediato (as compulsões), na verdade mantém e intensifica o problema. As obsessões deflagram compulsões que reforçam as obsessões. Isto significa que quanto mais a pessoa fizer qualquer ritual para sentir-se melhor, mais ela ficará escrava das obsessões, refém da própria mente.Tal círculo gera sofrimento intenso e faz com que a pessoa sinta-se diferente e envergonhada diante de outras pessoas. Paralelamente, ela é percebida como estranha e chata, o que compromete ainda mais suas interações sociais.

As obsessões mais comuns são:

 
  • Agressão: a sensação de que se está na iminência de ferir ou insultar alguém. Isso tende a levar a rituais de verificação;

  • Colecionismo: idéia fixa em colecionar determinados objetos inúteis ou não desfazer-se deles, por achar que serão úteis no futuro;

  • Contaminação: medo desmedido de se contagiar por vírus, bactérias ou substâncias tóxicas. Esse tipo de obsessão leva a rituais de limpeza e lavagem;

  • Dúvidas: preocupação constante com o fato de não confiar em si mesmo. Tendo dúvida constante de ter realizado ou não uma tarefa ou ato;

  • Mental: a pessoa tem certeza de que se não cumprir determinadas “tarefas mentais, como repetir inúmeras vezes uma mesma frase ou palavra, jamais ficará livre dos pensamentos ruins;

  • Sexual: a presença de pensamentos de conteúdo obsceno e impulsos incestuosos, indesejados ou impróprios, que causam muita culpa à pessoa;

  • Simetria: cuidado extremo com exatidão ou alinhamento de objetos;

  • Somáticos: preocupação excessiva com doenças, sem a presença de nenhum sintoma que possa gerar a preocupação.

O tratamento do TOC consiste em terapia medicamentosa e psicoterapia comportamental. A combinação de antidepressivos e ansiolíticos com psicoterapia comportamental reduz em 80% os sintomas (VEJA de 05/05/2004). Na psicoterapia, a pessoa é instruída e educada sobre o TOC, pois mostra-se fundamental o seu entendimento acerca do funcionamento do transtorno, para assim aumentar a probabilidade de sua adesão ao tratamento. Nas psicoterapia comportamental, o objetivo terapêutico é quebrar o círculo vicioso das obsessões e compulsões. Para tanto, a pessoa deve constatar que as obsessões são vazias, não têm fundamento, são “bolhas de sabão” e que quem dá tanto poder de controle para elas são as compulsões, ou seja, o que ela faz quando se sente ameaçada. O terapeuta deve expor a pessoa com TOC a uma situação geradora da obsessão/ compulsão no ambiente terapêutico, de forma gradativa com a garantia que ela não fará nada além de sentir-se ansiosa e ameaçada, até que a ansiedade chegue a um nível máximo e em seguida seja reduzida. Com a repetição de tal procedimento, a pessoa vai constatando que nada aconteceu; com isso a obsessão vai perdendo força. Tal exercício é sistematicamente praticado sempre que surgir uma obsessão, tornando-se um hábito. A essência da melhora está em não praticar as compulsões. Nesse ponto o engajamento da família no tratamento é primordial, pois os familiares sofrem muito com o TOC, e normalmente fazem qualquer coisa para tentar restabelecer a tranqüilidade, isso motiva a contribuir para a realização das compulsões. A família, também, precisa conhecer o funcionamento do transtorno para comprometer-se com o tratamento, sendo orientada a não rotular e não auxiliar na execução dos rituais. Algumas vezes, pode-se identificar outras dificuldades na vida da pessoa que influenciam a manutenção das obsessões e compulsões e tais questões são tratadas conjuntamente.

Percebe-se que quando a pessoa procura ajuda, sua vida está muito comprometida, em função das limitações impostas pelas obsessões e compulsões. Então, uma meta importante é auxiliá-la a retomar a direção de sua vida. Para isso, a psicoterapia comportamental deve ensiná-la habilidades que a levarão ao resgate das relações interpessoais satisfatórias, bem como projetos profissionais. Assim, a vida da pessoa não será somente o TOC, a pessoa deixará de viver em função dos seus comportamentos disfuncionais e reconduzirá sua vida de maneira mais fundamental.

InPA – Instituto de Psicologia Aplicada

E.mail p/ contato: clinica@www.inpaonline.com.br

 

Bibliografia:

SALKOVSKIS, P. M. & KIRK, J. (1997). Distúrbios obsessivos. Em Hawton, P. M. ; Salkovskis, P. M.; Kirk, J. & Clark, D. M. (Organizadores). Terapia Cognitivo-Comportamental para problemas psiquiátricos: Um guia prático. (pp.185-240). São Paulo: Martins Fontes.;_

RIGGS, D. S. & FOA, E. B. (1999). Transtorno Obsessivo Compulsivo. Em Barlow, D. H. (Org). Manual clínico dos transtornos psicológicos (pp. 217-272). Porto Alegre: Artes Médicas.

Rangé, B.; Asbahr, F.; Moritz, K. Ito. L. Transtorno Obsessivo Compulsivo. Em Range, B. (Org.). Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: um diálogo com a psiquiatra (pp. 257-274). Porto Alegre: Artes Médicas.

Revista VEJA, 05/05/2004. Quando as manias viram doença (pp.130-139), edição 1852, nr.18. Editora Abril.

Inpa – Instituto de Psicologia Aplicada, Asa Sul, Brasília – DF, Brasil.

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